Aves entre as mais barulhentas do mundo chamam a atenção em parque no interior de SP
Seriemas circulam na sede do Parque Carlos Botelho O Parque Estadual Carlos Botelho, em São Miguel Arcanjo (SP), abriga mais de 400 espécies de aves, sendo 25 ameaçadas de extinção, segundo dados do eBird. Entre elas estão duas espécies brasileiras que estão entre as aves mais barulhentas do mundo: a araponga-de-garganta-nua e a seriema. Os cantos das duas espécies ultrapassaram 120 decibéis de pi
Conteúdo de G1 — ler no site de origem
Seriemas circulam na sede do Parque Carlos Botelho
O Parque Estadual Carlos Botelho, em São Miguel Arcanjo (SP), abriga mais de 400 espécies de aves, sendo 25 ameaçadas de extinção, segundo dados do eBird. Entre elas estão duas espécies brasileiras que estão entre as aves mais barulhentas do mundo: a araponga-de-garganta-nua e a seriema.
Os cantos das duas espécies ultrapassaram 120 decibéis de pico, volume superior ao registrado por uma motosserra ou uma britadeira. A descoberta foi feita por pesquisadores da Universidade de Massachusetts Amherst, nos Estados Unidos. O estudo foi publicado na revista científica Evolution.
📲 Participe do canal do g1 Itapetininga e Região no WhatsApp
Aves brasileiras podem estar entre as mais barulhentas do mundo
Conforme divulgado pelo g1, os pesquisadores mediram a amplitude do canto de 123 espécies de aves em áreas próximas a Amherst, nos Estados Unidos, e em diferentes regiões do Brasil. Do total, 113 nunca haviam tido o volume de seus cantos catalogado.
Mais "exibida", a seriema (Cariama cristata) pode ser vista com mais facilidade circulando pelas áreas abertas da unidade de conservação. A espécie é típica de ambientes abertos e, no Carlos Botelho, aparece principalmente em gramados, jardins, estradas e outros espaços com pouca cobertura florestal. A ave é característica e considerada símbolo do Cerrado.
Vocalização da seriema chega a 120 decibéis e canto lembra risada longa e crescente
Douglas Gallao/Fundação Florestal
LEIA TAMBÉM
Lobo-guará é resgatado em canaleta às margens de rodovia em Itapetininga
Filhote de veado-catingueiro é resgatado sem a mãe e passa a ser alimentado na mamadeira; vídeo
Observação de aves, primatas, trilhas e passeios noturnos: Parque Carlos Botelho é referência em ecoturismo no interior de SP
Já a araponga (Procnias nudicollis) é uma ave essencialmente florestal e endêmica da Mata Atlântica. A espécie ocorre principalmente em áreas de floresta densa e bem conservada, inclusive em regiões de maior altitude, e costuma ficar no topo de árvores altas, onde também encontra frutos para se alimentar.
Segundo Nathália Zandomenegui, gestora do Parque Estadual Carlos Botelho pela Fundação Florestal, a presença das duas espécies na unidade está relacionada aos diferentes ambientes encontrados no parque.
"O Parque conserva grandes extensões de Floresta Ombrófila Densa, sendo justa a presença da araponga. A seriema, ao contrário, foi registrada em áreas de gramado e jardins. Portanto, sua presença não significa que ela esteja utilizando o interior da floresta densa como habitat típico", explica.
Araponga-de-garganta-nua
Divulgação
A gestora explica que, possivelmente, a seriema aproveita os ambientes abertos da sede, das estradas, das bordas da floresta e de outras áreas abertas do parque e de seu entorno.
"O próprio estudo ressalta que diversas aves de ambientes antropizados presentes no Parque Carlos Botelho estão relacionadas ao uso da terra no entorno da unidade."
Hábitos das espécies
A araponga-de-garganta-nua é predominantemente arborícola e frugívora, ou seja, vive nas árvores e se alimenta principalmente de frutos e sementes. "O palmito-juçara é um recurso importante. Como engole frutos e transporta sementes, a araponga também atua como dispersora de sementes, contribuindo para a regeneração da floresta."
Essencialmente terrestre e diurna, a seriema caminha e corre pelo solo, geralmente sozinha ou em pequenos grupos. Como prefere correr a voar, é mais comum encontrá-la andando pelas áreas abertas da unidade.
"Utiliza árvores principalmente para repouso, proteção e nidificação. É territorial e pode realizar duetos vocais entre integrantes do casal ou do grupo. Atualmente, estão nidificando [fazendo ninho], ficando mais territorialistas no ambiente em que estão construindo o ninho", relata a gestora.
Onívora e considerada uma espécie "oportunista", a seriema se alimenta principalmente de animais encontrados enquanto percorre o solo.
"Insetos e outros artrópodes, lagartos, pequenos roedores, anfíbios, pequenas serpentes, ovos e, eventualmente, aves. Também consome frutos e sementes", relata Nathália.
Seriema é vista com mais facilidade na unidade florestal devido aos hábitos da espécie
Douglas Gallao/Fundação Florestal
Vozes potentes
Além de circularem entre visitantes e funcionários da unidade, as seriemas também chamam a atenção pelo volume de suas vocalizações. Segundo Nathália, o canto das aves já chegou a "atrapalhar" palestras e apresentações realizadas no parque.
"As duas possuem vocalizações muito potentes. Para a sede de São Miguel Arcanjo, as arapongas não sobressaem com sua vocalização, mas as seriemas possuem uma vocalização mais presente. Em caso de palestras e apresentações, pode ser que ocorra uma competição para quem fala mais alto. Mas, em um sentido geral, são vocalizações que, após alguns instantes, se encerram."
Os sons fortes permitem que as aves se comuniquem a maiores distâncias e são especialmente úteis para indicar território ou localização. Não há indicação de que nenhuma das duas espécies utilize a vocalização para atrair presas. No caso da araponga, o canto do macho está fortemente relacionado à reprodução e à atração de fêmeas. "Os machos mantêm locais tradicionais de canto e fazem exibições acústicas muito marcantes", explica Nathália
Já para a seriema, a vocalização tem um papel importante na comunicação social e territorial. "Casais podem cantar em dueto, e as vocalizações ajudam a manter contato entre indivíduos e a delimitar territórios. Também há vocalizações específicas em situações de alerta", explica
"A vocalização da araponga é curta, extremamente forte e metálica, lembrando a pancada de um martelo contra uma bigorna. Já a seriema tem uma sequência de notas muito fortes que lembra uma risada longa e crescente, podendo durar vários minutos. Podem cantar solo, em coro ou dueto", complementa Nathália.
Características físicas das aves
O macho adulto da araponga é praticamente todo branco. Destacam-se a região nua da garganta e da face, de coloração verde-azulada, além do bico escuro. "As fêmeas e os indivíduos jovens são predominantemente verde-oliva, o que proporciona maior camuflagem entre a folhagem. Os machos jovens passam gradualmente da plumagem esverdeada para a branca", detalha a especialista.
A seriema pode chegar a aproximadamente 90 centímetros de comprimento. A espécie possui pernas e pescoço longos, plumagem cinza-amarelada ou pardo-acinzentada, pernas e bico avermelhados, cauda longa e uma característica crista de penas na base do bico, com cerca de 12 centímetros. "Machos e fêmeas não apresentam diferenças físicas marcantes."
Último levantamento feito pelo parque apontou a presença de um casal e quatro filhotes de seriema na unidade
Douglas Gallao/Fundação Florestal
De acordo com Nathália, um dos estudos realizados em toda a extensão do parque contabilizou 57 contatos com arapongas na região Canela–Fornos e 76 no Taquaral. Os registros reforçam a presença da espécie nos ambientes florestais da unidade.
"Um mesmo indivíduo pode ter sido contatado em ocasiões distintas. Portanto, não é uma estimativa populacional atual do parque", detalha a gestora.
No caso das seriemas, no ano passado foram registrados seis indivíduos da espécie: um casal e quatro filhotes. Com o passar do tempo, porém, os indivíduos se separaram, e atualmente permanecem dois casais na área.
Trilha das Bromélias é uma das mais acessíveis para crianças, idosos e pessoas com deficiência. O trecho, de 500 metros, fica no Núcleo São Miguel Arcanjo (SP)
Parque Estadual Carlos Botelho/Divulgação
O estudo O objetivo do trabalho não era encontrar a ave mais barulhenta, mas entender quais características físicas podem determinar o volume do canto e investigar se o nível de som está relacionado ao ambiente em que a ave vive e à sua organização social.
A pesquisa encontrou uma diferença de 58 decibéis entre os cantos analisados:
Na parte mais baixa da escala estava o beija-flor, com 64 decibéis, aproximadamente o volume de uma conversa normal.
Na outra ponta estavam o araponga-de-garganta-nua e a seriema, que ultrapassaram os 120 decibéis de pico, superior ao volume de equipamentos como uma motosserra ou uma britadeira.
João Menezes, o brasileiro que faz parte do grupo de pesquisadores e aluno de pós-graduação da Universidade de Massachusetts Amherst, explicou ao g1 que os fatores que podem contribuir para a diferença de decibéis entre os cantos das espécies pode estar relacionada ao tamanho e largura da abertura do bico. "Em geral, aves maiores e com uma abertura de bico mais larga tendem a cantar mais alto. Isso fica bem ilustrado pelas espécies com cantos mais altos que registramos: a seriema é a maior espécie na nossa amostra, enquanto as arapongas têm aberturas de bico especialmente largas para seu tamanho", analisa Menezes.
As aves mais barulhentas também apresentam músculos mais robustos, que podem permitir uma maior compressão de ar, e aberturas de bico mais largas.
Os pesquisadores fazem uma comparação com instrumentos musicais: assim como campânulas (partes estruturais em forma de sino) mais largas podem ajudar a amplificar o som de instrumentos como trompetes, bicos mais largos podem contribuir para a produção de sons mais altos.
Apesar de identificar essas características, o estudo não conseguiu estabelecer uma relação clara entre o volume do canto e a função ecológica ou evolutiva desse som.
Antes da pesquisa, os cientistas haviam levantado a hipótese de que as aves mais barulhentas seriam voadoras mais fracas, viveriam em florestas densas e praticariam poligamia.
A ideia era que um canto mais alto poderia compensar uma mobilidade limitada, ajudar a comunicação em ambientes nos quais seria mais difícil para as aves se enxergarem e permitir que chamados de acasalamento alcançassem parceiros a maiores distâncias.
Os dados, porém, não sustentaram essas hipóteses de forma ampla.
"Entre os fatores ecológicos que estudamos, nenhum explicou com clareza por que algumas espécies evoluíram cantos mais altos do que outras. Isso não quer dizer que habitat, capacidade de voo ou sistema de acasalamento nunca sejam importantes, mas sim que não parecem ser regras gerais para as aves como um todo", detalha Menezes.
Ele ainda acrescenta que a observação ajudou a entender como as estruturas físicas dos animais contribuem para os cantos mais altos, mas ainda há um longo caminho pela frente.
"Deve haver algo particularmente eficiente na maneira como elas produzem ou irradiam o som que tamanho corporal e largura do bico sozinhos não explicam. Descobrir esse 'algo a mais' é justamente uma das perguntas que surgem do estudo", afirma.
Initial plugin text
Veja mais notícias no g1 Itapetininga e Região
VÍDEOS: assista às reportagens da TV TEM