Conheça as histórias e os mistérios da Sala dos Milagres de Nossa Senhora Aparecida em Uberlândia
Curadora da sala dos milagres ensina a fazer promessas e pedidos Uma fotografia de um terreno recém-comprado, uma mecha de cabelo guardada por anos, uma pequena peça de cera que representa uma parte do corpo humano. À primeira vista, os objetos parecem não ter relação entre si. Mas, na Sala dos Milagres de Nossa Senhora Aparecida, em Uberlândia, no Triângulo Mineiro, cada um deles pode carregar a
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Curadora da sala dos milagres ensina a fazer promessas e pedidos
Uma fotografia de um terreno recém-comprado, uma mecha de cabelo guardada por anos, uma pequena peça de cera que representa uma parte do corpo humano. À primeira vista, os objetos parecem não ter relação entre si. Mas, na Sala dos Milagres de Nossa Senhora Aparecida, em Uberlândia, no Triângulo Mineiro, cada um deles pode carregar a memória de uma promessa, a expectativa de uma cura ou o agradecimento por uma graça alcançada.
O espaço reúne testemunhos de devotos que, depois de atravessarem momentos difíceis ou realizarem desejos importantes, decidem transformar a própria experiência em um objeto. Há quem leve uma fotografia para agradecer pela conquista de um terreno onde pretende construir a casa própria. Outros entregam peças relacionadas a tratamentos de saúde, cartas escritas à mão, roupas usadas durante períodos de internação e até chaves de imóveis.
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Por trás dessa coleção está uma prática religiosa antiga, que também desperta o interesse de pesquisadores: os ex-votos, objetos oferecidos como testemunho de uma promessa cumprida. Na sala, a fé se manifesta em diferentes materiais, formatos e histórias, algumas conhecidas, outras preservadas sem identificação para proteger a intimidade de quem as viveu.
A organização desse acervo é acompanhada pela professora universitária e artista plástica Ana Helena da Silva Delfino Duarte, docente do curso de Artes Visuais da Universidade Federal de Uberlândia (UFU). Com pesquisas de mestrado e doutorado dedicadas ao tema, ela estuda os objetos tanto pela dimensão religiosa quanto pelas características artísticas e culturais.
“Eu não consigo eleger nenhum especificamente aqui, porque é um conjunto tão sensível, tão rico, cada um com sua devida importância e simbolismo”, afirmou a professora.
Para ela, cada objeto deve ser compreendido a partir do significado que tem para quem o ofereceu. Uma peça que parece simples aos olhos de um visitante pode representar um dos momentos mais importantes da vida de outra pessoa.
Objetos que contam histórias
Sala dos Milagres em Uberlândia
Gabriel Reis/g1
Uma das particularidades da Sala dos Milagres é a diversidade de objetos que chegam ao local. Alguns são facilmente reconhecidos: fotografias de pessoas, imagens religiosas, cartas e peças que reproduzem partes do corpo humano. Outros exigem um olhar mais atento para que se compreenda o significado atribuído a eles.
As peças de cera, por exemplo, podem representar rins, cabeças, mamas e outras partes do corpo. Em muitos casos, são oferecidas por pessoas que agradecem por uma cirurgia, pelo tratamento de uma doença ou pela recuperação de um familiar.
A escolha do objeto nem sempre segue uma lógica literal. Uma pessoa que enfrentou um problema de saúde pode oferecer uma cabeça de cera mesmo quando a doença atingiu outra parte do corpo. Para alguns devotos, explica Ana Helena, a cabeça simboliza também a espiritualidade e a capacidade de organizar os próprios pensamentos.
A professora conta que o acervo inclui peças artesanais, confeccionadas pelos próprios fiéis. Há objetos feitos de cera de abelha, pequenas roupas e trabalhos de bordado que revelam a criatividade de quem deseja materializar uma promessa.
“Quase tudo aqui tem essa coisa da interferência do feito à mão”, ressaltou.
A produção artesanal também faz parte do interesse acadêmico da pesquisadora, que enxerga nos ex-votos uma combinação entre expressão artística e religiosidade popular. O objeto não precisa ser elaborado ou ter acabamento profissional para carregar significado.
“Eu entendo esses objetos também como arte e fé, porque tem uma arte criativa neles”, explicou.
Algumas peças chegam acompanhadas de relatos detalhados. Outras não trazem qualquer informação sobre quem as produziu ou qual promessa motivou a entrega. Mesmo assim, são incorporadas ao conjunto, que cresce conforme os devotos procuram o santuário.
Uma fotografia para agradecer pela casa própria
Entre os objetos que chamam a atenção estão as fotografias de casas e terrenos. Uma delas representa um terreno comprado por uma pessoa que atribui a conquista à intercessão de Nossa Senhora Aparecida.
A promessa, nesse caso, não terminou com a aquisição do imóvel. O devoto deixou uma fotografia do terreno e anunciou que voltaria quando a casa estivesse pronta.
“É muito bonito. A pessoa traz uma foto do terreno que comprou e faz o depoimento: ‘Mãe Aparecida, vim trazer a fotografia do terreno onde será a minha casa. Esse terreno eu já comprei com a sua intercessão. Quando eu fizer a casa, vou trazer a casa’”, contou Ana Helena.
Objetos ajudam a contar história de quem teve graça alcançada
Gabriel Reis/g1
O relato mostra como os objetos também podem registrar projetos ainda em andamento. A fotografia não representa apenas uma conquista: ela guarda a expectativa de uma nova etapa da vida.
Outros objetos têm significado semelhante. Chaves podem ser levadas para pedir uma bênção para a casa, enquanto fotografias, documentos e lembranças de conquistas profissionais aparecem entre os testemunhos de agradecimento.
Segundo a professora, as promessas abrangem diferentes aspectos da vida, como saúde, trabalho, casamento e moradia. Em todos esses casos, o objeto escolhido funciona como uma lembrança material daquilo que o devoto considera uma graça recebida.
Cabelos, roupas e outros símbolos de agradecimento
Pessoas doam cabelo como promessa
Gabriel Reis/g1
Entre os objetos que mais chamam a atenção estão as mechas de cabelo. Os motivos para oferecê-las são variados e nem sempre estão diretamente relacionados a uma doença.
Há pessoas que deixam o cabelo crescer até a formatura de um filho e, depois da conquista, cortam os fios para cumprir a promessa. Outras prometem doar o cabelo durante um período de tratamento contra o câncer. Mesmo depois da recuperação, continuam seguindo o compromisso assumido e levam as mechas ao santuário.
“Essas histórias são muito bonitas”, disse Ana Helena.
Parte do material permanece em exposição. O restante pode ser encaminhado para iniciativas de produção de perucas destinadas a pessoas em tratamento contra o câncer, conforme o procedimento adotado no local.
A professora explicou que o encaminhamento faz parte de uma organização criada para dar outra destinação aos cabelos recebidos. Para alguns devotos, saber que os fios poderão ajudar outras pessoas não diminui o significado da promessa.
“Para eles, o importante é falar: ‘Eu paguei a promessa’”, afirmou.
As roupas seguem uma lógica semelhante. Uma das peças preservadas na sala está associada a um relato de três anos de cura e libertação do vício em drogas, por intercessão de Nossa Senhora Aparecida. Junto dela, foram entregues roupas e um chinelo que, segundo a professora, possivelmente estavam relacionados ao período de internação.
Ao observar o conjunto, Ana Helena chama a atenção para a relação entre os objetos e as experiências vividas pelos devotos. Não se trata apenas de entregar algo: muitas vezes, a escolha recai sobre uma peça que acompanhou diretamente aquele período.
A materialidade desses objetos é importante. Em vez de apenas contar o que aconteceu, os devotos deixam algo que esteve ligado à experiência ou que simboliza a transformação vivida.
Itens de cera representam partes do corpo curadas
Gabriel Reis/g1
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Os mistérios por trás dos objetos
Nem todas as histórias podem ser contadas em detalhes. Alguns objetos chegam acompanhados de relatos muito pessoais, que envolvem situações delicadas de saúde, conflitos familiares ou momentos de sofrimento. Para preservar a identidade dos envolvidos, Ana Helena evita divulgar informações que possam permitir o reconhecimento dessas pessoas.
Em determinados casos, há apenas iniciais, uma breve descrição ou nenhum registro escrito. A ausência de informações, no entanto, não significa que o objeto tenha menos importância para quem o entregou.
A professora relata que já encontrou peças e cartas relacionadas a situações familiares extremamente delicadas. Embora conheça alguns desses relatos, prefere não revelar detalhes que possam identificar os envolvidos.
“Se eu contar essa história especificamente, alguém vai decodificar isso”, explicou.
Imagens e roupas representam devoção
Gabriel Reis/g1
Essa é uma das características que tornam o espaço tão particular: para quem visita a sala, alguns objetos permanecem envoltos em mistério. A equipe pode identificar o material ou deduzir o sentido de uma peça, mas nem sempre conhece o episódio que motivou a promessa.
A pesquisadora também evita estabelecer uma hierarquia entre os testemunhos. Para ela, não cabe decidir qual história é mais importante ou qual objeto merece mais destaque.
“É muito significativo a importância que cada um dá”, afirmou.
O acervo revela ainda mudanças nos costumes e nas formas de expressão da fé. Fotografias, por exemplo, eram mais difíceis de produzir no passado. Antes da popularização dos celulares, famílias podiam recorrer a fotógrafos que montavam cenários para registrar pessoas doentes. Hoje, imagens feitas com o próprio telefone são impressas e entregues com facilidade.
Cartas continuam chegando, assim como fotografias, objetos artesanais e itens ligados a situações profissionais, familiares e de saúde. Cada época deixa suas marcas na coleção.
O que são os ex-votos?
Fiéis tem preferência por fazer objetos a mão
Gabriel Reis/g1
O termo ex-voto designa o objeto oferecido em cumprimento de uma promessa, como forma de agradecimento por uma graça alcançada. A prática está presente em diferentes tradições religiosas e pode assumir muitas formas, de acordo com a experiência do devoto e os costumes de cada santuário.
Na explicação de Ana Helena, a promessa pode começar com um pedido feito mentalmente ou por escrito. Uma pessoa que enfrenta uma doença, por exemplo, pode pedir a intercessão de Nossa Senhora Aparecida durante o tratamento e prometer que, se conseguir se recuperar, levará um objeto relacionado à experiência.
“É um objeto material que se oferece para pagar uma promessa feita e alcançada”, resumiu.
Quando a graça é alcançada, o objeto é entregue como testemunho público do compromisso cumprido. A professora ressalta que não se trata apenas de uma peça guardada pela pessoa em casa. A entrega em um espaço coletivo permite que a experiência seja compartilhada com outros fiéis e passe a integrar a memória religiosa do lugar.
“Ele pode colocar aqui, pode colocar numa praça onde tem um cruzeiro, na beirada de uma estrada pública ou num túmulo. Mas o mais usual são as salas das promessas, dos milagres”, explicou.
As promessas também podem envolver conquistas que não estão relacionadas à saúde. Trabalho, casamento, aquisição de uma casa e outros projetos de vida aparecem entre os motivos que levam os devotos a procurar o espaço.
Em alguns santuários de outros países, segundo Ana Helena, há salas que reúnem vestidos de noiva e ternos oferecidos por pessoas que prometeram entregá-los caso conseguissem se casar. A diversidade de objetos acompanha, assim, a variedade de desejos e preocupações humanas.
A pesquisadora explica que uma promessa não precisa necessariamente resultar em um objeto físico. O que diferencia os ex-votos reunidos na sala é justamente a decisão de materializar o compromisso em algo que possa ser entregue e exposto.
Uma pesquisadora entre a arte e a fé
O interesse de Ana Helena pelo tema começou com o estudo das fotografias entregues pelos devotos. Ao investigar a origem dessas imagens e a maneira como eram produzidas, ela passou a observar os ex-votos como manifestações artísticas e expressões da religiosidade popular.
“Quando comecei a estudar, em 2000, não tinha esse tipo de material sendo vendido aqui. Geralmente, era Curitiba que tinha uma fábrica de cera. Eu liguei para lá para pesquisar”, lembrou.
A pesquisa se ampliou ao longo dos anos. Hoje, além da docência na UFU, a professora atua no campo da museologia, da arte e do patrimônio, contribuindo para a organização e a compreensão desse tipo de acervo.
O trabalho inclui identificar materiais, organizar os objetos por categorias, avaliar o que deve permanecer em exposição e encaminhar itens que podem receber outra destinação. A tarefa exige conhecimento técnico, mas também sensibilidade para compreender o significado de cada peça.
A relação de Ana Helena com o espaço é também pessoal. Criada em São Francisco de Sales, no interior de Minas Gerais, ela cresceu em um ambiente marcado pelas práticas religiosas da comunidade e pela presença da arte sacra nas igrejas.
“Eu sou mineira, de uma cidade pequenininha, São Francisco de Sales. Na época, tudo se comunicava pelo sino. Minha família recebia o padre, o terço era na nossa casa. Eu não posso me deslocar desse lugar”, contou.
Ela diz que a convivência com imagens religiosas desde a infância contribuiu para aproximar sua fé do interesse pela arte.
“Eu sou extremamente uma pessoa de muita fé”.
A professora também deixou na sala pequenos testemunhos relacionados à própria família. Entre eles, há um objeto ligado à recuperação da mãe, que enfrentou um quadro grave e correu risco de amputação. Depois de uma terceira cirurgia, a situação evoluiu favoravelmente. A mãe, que tinha 85 anos na época do episódio, chegou aos 94.
“Esse aqui foi um caso gravíssimo. Minha mãe correu risco de amputação. Eu devo muito esse quadrinho como depoimento. Deu certo na terceira cirurgia”, relatou.
Outro registro está relacionado a um problema renal enfrentado pela filha.
Ao falar dessas experiências, Ana Helena demonstra que a pesquisadora não está distante da dimensão religiosa que estuda. Ao mesmo tempo, procura tratar cada relato com cuidado, sem hierarquizar as experiências ou determinar qual delas seria mais importante.
Como entregar um objeto na Sala dos Milagres
Quem deseja agradecer por uma graça alcançada ou fazer um pedido pode procurar a secretaria do santuário. Segundo Ana Helena, os objetos e os relatos costumam ser recebidos pelas pessoas que trabalham no local e, depois, encaminhados conforme a organização da sala.
O devoto pode entregar uma peça, uma fotografia ou uma carta e, se desejar, registrar por escrito o motivo da promessa. Também é possível fazer a entrega sem se identificar.
“Se ele quiser fazer a identificação, contar a história, ele preenche o papel. Se quiser só marcar um dos quadros, pode. Se não quiser se identificar, não precisa”, explicou.
Há ainda formulários destinados a pedidos de intercessão, para quem deseja fazer uma solicitação a Nossa Senhora Aparecida. Não é necessário esperar que a graça seja alcançada para manifestar a fé ou fazer um pedido.
“Você pode pedir na sua casa, mas, se quiser vir aqui e fazer o pedido, também pode”, afirmou a professora.
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