Homens, brancos e candidatos à reeleição são perfil médio de quem mais recebe recursos de campanha dos partidos
Homens, brancos e candidatos que tentam renovar seus mandatos predominam entre os favorecidos com os maiores repasses feitos pelos partidos para candidatos a deputado federal nas eleições de 2026. Os dados são de um levantamento do g1 feito com base nas prestações de contas dos partidos disponíveis no sistema do Tribunal Superior Eleitoral. Ao todo, 25 dos 30 partidos destinaram recursos a 5.766 c
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Homens, brancos e candidatos que tentam renovar seus mandatos predominam entre os favorecidos com os maiores repasses feitos pelos partidos para candidatos a deputado federal nas eleições de 2026. Os dados são de um levantamento do g1 feito com base nas prestações de contas dos partidos disponíveis no sistema do Tribunal Superior Eleitoral.
Ao todo, 25 dos 30 partidos destinaram recursos a 5.766 candidatos, mas apenas 52 candidaturas receberam o maior valor repassado por suas respectivas siglas — em alguns partidos, mais de um candidato aparece nessa posição, porque receberam valores iguais. Juntos, esses candidatos tiveram R$ 122,6 milhões de um total de R$ 2,6 bilhões destinados pelos diretórios partidários aos seus candidatos à Câmara dos Deputados. Desse grupo, 61,5% (32) são homens, 67,3% (35) são brancos e 55,7% (29) disputam a reeleição.
Candidatos que receberam mais recursos de seus partidos até 13/09.
Kayan Albertin / Arte g1
🔎 Os dados analisados foram coletados em 14 de setembro, o dia seguinte ao fim do prazo para a entrega da prestação parcial das contas de campanha. A planilha apresenta a movimentação financeira dos candidatos registrada até 13 de setembro. Foram considerados apenas os valores cujo doador é um diretório partidário, seja ele nacional, estadual ou municipal. Um levantamento realizado pela ONG Transparência Brasil, com base nas receitas disponibilizadas pelo TSE até 15 de setembro - para as candidaturas válidas a deputado federal, estadual e distrital - confirma que o padrão identificado pelo g1 se repete na distribuição dos recursos para todas as candidaturas proporcionais. O estudo considera o repasse de recursos públicos do Fundo Eleitoral e do Fundo Partidário.
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Enquanto o percentual de candidatos brancos (50,2%) e não brancos (49,8%) é praticamente igual, a distribuição do dinheiro é bem diferente, segundo o levantamento. As candidaturas brancas receberam 60,4% dos recursos públicos dos partidos. Já a desigualdade de gênero começa no registro de candidatas. As mulheres representam 35,6% das candidaturas analisadas pela Transparência Brasil. As brancas recebem 21,3% dos recursos públicos, enquanto as mulheres negras (pretas e pardas), indígenas ou amarelas recebem 17,3%.
Para Bianca Berti, analista sênior da ONG e uma das responsáveis pelo estudo, o perfil de quem é prioridade dos partidos na distribuição da verba de campanha explica tanto as desigualdades de representação quanto a baixa renovação do Legislativo.
“Os partidos políticos têm papel fundamental na manutenção da desigualdade de representação de diversos setores da sociedade brasileira e na baixa renovação política, porque o financiamento das campanhas tem impacto direto e relevante no sucesso eleitoral. Quanto mais recursos a campanha tem, maiores tendem a ser suas chances de sucesso", disse Berti.
25 candidatos receberam a partir de R$ 3 milhões O levantamento identificou 25 candidatos a deputado federal que receberam mais de R$ 3 milhões. O PL fez o maior repasse para uma candidatura. A beneficiária foi Rosana Valle, uma deputada federal que se autodeclarou branca e recebeu R$ 3,3 milhões.
No Republicanos, o maior valor foi de R$ 3,1 milhões, destinado para a deputada federal Daniela do Waguinho. Esposa de Waguinho, ex-prefeito de Belford Roxo (RJ), a candidata declara-se branca. No PP, os candidatos à reeleição Pedro Aihara e Socorro Neri também receberam R$ 3,1 milhões cada. Ele se autodeclarou amarelo e ela, branca. Deputados federais aprovaram PEC que determina que parlamentares só podem ser processados pelo STF com autorização da Câmara ou do Senado
Bruno Spada / Câmara dos Deputados
A mesma quantia foi destinada pelo Cidadania para Sandrinha Cavalcante. Casada com Glêdson Bezerra, prefeito de Juazeiro do Norte, no Ceará, ela concorre pela primeira vez e se declara branca.
Também cearense, a ex-prefeita de Nova Russas, Giordanna Mano, recebeu R$ 3 milhões do PRD para a sua campanha. Ela, que se declara branca, é casada com o deputado federal Júnior Mano (PSD) e concorre à Câmara pela primeira vez. Seu colega de partido Lucas Calil recebeu a mesma quantia. Ele declara-se branco e atualmente é deputado estadual de Goiás.
Ainda na casa dos R$ 3 milhões, os candidatos à reeleição Baleia Rossi (MDB) e Marcio Honaiser (Solidariedade) receberam R$ 3 milhões, cada, dos seus partidos. Os dois declaram-se brancos.
Os únicos que se autodeclararam pardos e receberam recurso na faixa de R$ 3 milhões foram os candidatos à reeleição Silvye Alves (União Brasil) e Marcio Jerry (PCdoB).
Já o PDT destinou R$ 3 milhões para 14 candidatos: Roberto Requião, Paulo Cezar, Delegada Martha Rocha, Isabel Nogueira, Fátima Sousa, Marcos Tavares, Josenildo, Vitor Junior, Félix Mendonça Júnior, Dorinaldo Malafaia, Pompeo de Mattos, Professor Maneschy, Axel Grael e Afonso Motta. Desses candidatos, 11 são homens, 9 declaram-se brancos e 6 concorrem à reeleição.
18 candidatos receberam a partir de R$ 2 milhões
Outros 10 partidos destinaram valores a partir de R$ 2 milhões individualmente para candidatos à Câmara dos Deputados. No PT, a deputada federal Dilvanda Faro, que se declara preta, recebeu o maior repasse, de R$ 2,9 milhões. No PSD, a candidata à reeleição Leandre Dal Ponte, que se declara branca, recebeu R$ 2,8 milhões. A mesma quantia foi destinada pela Rede para Heloisa Helena, que se autodeclarou parda. Na atual legislatura, ela é suplente e ocupou o cargo de deputada federal algumas vezes.
No PSDB, quem teve o maior repasse do partido foi o candidato à reeleição Paulo Abi-Ackel: R$ 2,7 milhões. Ele declara-se branco.
No Podemos, três candidatos receberam o maior valor da sigla, de R$ 2,5 milhões cada: a deputada federal Renata Abreu, o deputado federal Douglas Viegas e a vereadora de São Paulo Ana Carolina Oliveira. As duas mulheres declaram-se brancas e o homem, pardo.
A mesma quantia foi repassada para o deputado federal Rodrigo Rollemberg (PSB), que se declara branco, e para Duarte Junior (Avante), que se autodeclarou pardo e concorre à reeleição.
Ainda na faixa dos R$ 2,5 milhões, sete candidatos do PV receberam a mesma quantia cada: os deputados Professor Reginaldo Veras, Bacelar, Eduardo Bismarck, Bandeira de Mello, Clodoaldo Magalhães, Aliel Machado, e a vereadora de Natal (RN) Thabatta Pimenta. Desses, cinco declaram-se brancos.
Já o Novo destinou R$ 2,3 milhões para o candidato à reeleição Gilson Marques Vieira, que se declara branco; e o PSOL repassou R$ 2,2 milhões, a maior quantia do partido, para a deputada federal Érika Hilton, autodeclarada preta.
Nos demais partidos, os maiores repasses foram de R$ 350 mil no DC; R$ 163,6 mil no PSTU; R$ 25 mil no Mobiliza; R$ 14,2 mil no Missão; e R$ 9,4 mil na UP. Dos nove candidatos desses partidos, cinco são homens e sete declaram-se brancos. Nenhum concorre à reeleição.
13% das candidaturas receberam mais da metade dos recursos
Segundo o levantamento do g1, a concentração de recursos nas candidaturas brancas e masculinas vai além daqueles que receberam os maiores valores de cada sigla. Dos R$ 2,6 bilhões repassados pelos partidos, mais da metade do dinheiro ficou com apenas 786 candidatos. Isso significa que menos de 14% das 5.766 candidaturas receberam, juntas, mais de R$ 1,3 bilhão. A outra metade do dinheiro foi dividida entre o restante, quase 5 mil candidatos (86%).
Dos 25 partidos que fizeram repasses, 17 tinham maioria de homens entre os candidatos que concentraram metade dos recursos: PL, Republicanos, PP, MDB, União Brasil, PDT, Solidariedade, PRD, PT, PSD, PSDB, Avante, PSB, Podemos, PV, Novo e DC.
Maioria dos partidos destinam 50% dos recursos para homens e brancos.
Kayan Albertin/Arte g1
Apenas sete partidos tinham maioria de mulheres no grupo das candidaturas que receberam 50% dos recursos: PSOL, PCdoB, Cidadania, Missão, Mobiliza, PSTU e UP. Na Rede, há equilíbrio entre homens e mulheres.
Já no recorte de cor ou raça, o DC foi o único partido em que candidatos negros eram maioria entre aqueles que concentraram aproximadamente metade dos recursos destinados pelo partido. No PCdoB, na Rede, no Avante e na UP havia equilíbrio entre brancos e não brancos. Nos demais partidos, os brancos eram maioria.
A tentativa de reeleição também é frequente entre os candidatos que concentram os recursos. Dos 786 candidatos desse grupo, 326 (41,5%) são deputados federais eleitos ou que ocuparam o cargo como suplentes entre 2023 e 2026.
Segundo Beatriz Mendes, cientista política e pesquisadora da Universidade de São Paulo, mostra que existe uma distância muito grande entre conseguir uma indicação partidária e receber apoio para disputar uma eleição de maneira competitiva. Para ela, a justificativa de investir em quem tem maior chance de vencer precisa ser examinada criticamente, porque a competitividade também é construída pelo próprio apoio partidário. "Quem já ocupa um mandato costuma chegar à disputa com reconhecimento público, relações políticas e uma trajetória eleitoral consolidada. Quando o financiamento reforça essas vantagens, quem tenta entrar precisa demonstrar competitividade sem ter recebido condições semelhantes para desenvolvê-la", disse Mendes.
Esposas de políticos e famosos estão entre candidaturas com mais verbas
Também estão no grupo das candidaturas que receberam metade dos recursos partidários, esposas de políticos e pessoas famosas. O g1 identificou oito candidatos com esses perfis. Apenas uma delas concorre à reeleição.
Entre as esposas, além da deputada federal Daniela do Waguinho, Sandrinha Cavalcante e Giordanna Mano - que receberam os maiores valores do Republicanos, Cidadania e PRD, respectivamente - estão ainda Virgínia Mendes, esposa do ex-governador de Mato Grosso, Mauro Mendes; e Sirlange Maganhato, casada com o prefeito de Sorocaba (SP), Rodrigo Manga. As duas são do União, que destinou R$ 2,9 milhões para Virgínia e R$ 2,7 milhões para a Sirlange.
Já Natália Boulos, casada com o ministro da Secretaria-Geral da Presidência, Guilherme Boulos, recebeu R$ 1,9 milhão do Psol.
Segundo Bianca Berti, as esposas de políticos que se candidatam tendem a acessar a disputa eleitoral em uma posição de vantagem. "O capital político e social do marido pode ser mobilizado em favor das campanhas das esposas, e a posição deles dentro do partido também contribui para a obtenção de recursos e priorização dessas candidaturas", disse a analista.
Entre os famosos no grupo que concentram 50% dos recursos destinados pelos partidos está o cantor Manoel Gomes. Ele ficou conhecido pela música "Caneta Azul" e recebeu R$ 1,2 milhão em recursos de campanha do Avante. Já a filha de Sílvio Santos, Silvia Abravanel, recebeu R$ 2,3 milhões do PSD. Em ambos os casos, esse foi o quarto maior valor destinado pelos partidos para uma única candidatura. Por último, a influenciadora digital Antônia Fontenelle recebeu R$ 700 mil do PSDB. Segundo Berti, os candidatos famosos têm a notoriedade agindo em seu favor, porque conseguem converter a fama em visibilidade para suas campanhas. Isso acaba sendo vantajoso para os partidos.
"A regra de distribuição proporcional de cadeiras privilegia a concentração de recursos nas candidaturas puxadoras de voto, já que essas podem garantir mais vagas para o partido e carregar outros nomes da legenda", explicou Berti.
🔎 O número de cadeiras que cada sigla ocupará no legislativo depende da quantidade total de votos que seus candidatos obtiveram, dividida pelo quociente eleitoral -- que é a razão entre o total de votos válidos no estado do candidato e o total de cadeiras na casa legislativa. Os demais candidatos ainda precisam superar a cláusula de barreira individual, de 10% do quociente eleitoral, para que sejam efetivamente puxados pelos mais votados.
Desigualdade na distribuição de recursos públicos
Segundo o estudo da Transparência Brasil, dos R$ 4,16 bilhões declarados como receitas pelos candidatos, R$ 3,9 bilhões (93%) são recursos públicos. Desse montante, R$ 3,6 bilhões vieram do Fundo Eleitoral.
Para Bianca Berti, a origem predominantemente pública do financiamento aumenta o peso das decisões tomadas internamente pelos partidos.
“Como a maior parte das campanhas são financiadas a partir de repasses dos fundos públicos, que são decididos pelos partidos políticos, eles passam a deter um poder muito grande na hora de decidir quais candidaturas serão ou não priorizadas.”
⚠️ A lei eleitoral proíbe o financiamento de campanhas eleitorais por empresas. As formas de financiamento permitidas são recursos públicos ou doações feitas por pessoas físicas. Para as eleições de 2026, 30 partidos receberam, juntos, R$ 4,9 bilhões de Fundo Eleitoral. O recurso é distribuído de acordo com a representação da sigla no Congresso Nacional. Caso o partido não tenha deputado ou senador eleito, recebe apenas a cota mínima.
O PL teve a maior parcela, R$ 881,7 milhões; seguido pelo PT, com R$ 615,4 milhões; União Brasil, com R$ 526,2 milhões; PSD, com R$ 421 milhões; PP, com R$ 417,1 milhões; e MDB, com R$ 400 milhões. Na outra ponta, dez partidos receberam somente a cota mínima, de aproximadamente R$ 3,3 milhões cada: Agir, DC, Democrata, Missão, Mobiliza, PCB, PCO, PRTB, PSTU e UP.
PL e PT receberam os maiores valores de Fundo Eleitoral.
Kayan Albertin/Arte g1
Um levantamento divulgado pelo Núcleo de Estudos e Pesquisas da Consultoria Legislativa do Senado em setembro de 2026 mostra que a expansão do financiamento público nas campanhas eleitorais entre 2018 e 2022 reduziu a desigualdade entre os partidos na distribuição desses recursos. No entanto, o mesmo não ocorreu dentro das legendas, onde a distribuição ainda depende dos critérios de cada partido.
O estudo criou um índice para medir a desigualdade entre os partidos e a desigualdade dentro de cada partido. Quanto mais próximo de zero, menor será a desigualdade observada.
Nas eleições para deputado federal, a desigualdade entre partidos caiu pela metade (50,5%), de 1,024 em 2018 para 0,507 em 2022. Já o índice dentro de cada partido diminuiu apenas 13,75%, de 0,589 para 0,508.