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Lula diz que SUS fornecerá canetas emagrecedoras, mas medida ainda depende de três etapas

O presidente Lula, candidato à reeleição pelo PT, esteve em Minas O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), candidato à reeleição, afirmou durante evento em Minas Gerais que as canetas emagrecedoras serão oferecidas de graça no Sistema Único de Saúde (SUS). A promessa ocorreu no mesmo dia em que anunciou o reajuste de 15% no Bolsa Família, que passa a valer em outubro. Entretanto, a oferta do m

Por Redação Publicado em 18 de setembro de 2026 às 16:21 12 min de leitura

Conteúdo de G1ler no site de origem

Lula diz que SUS fornecerá canetas emagrecedoras, mas medida ainda depende de três etapas
Publicado originalmente por [fonte]


O presidente Lula, candidato à reeleição pelo PT, esteve em Minas

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), candidato à reeleição, afirmou durante evento em Minas Gerais que as canetas emagrecedoras serão oferecidas de graça no Sistema Único de Saúde (SUS). A promessa ocorreu no mesmo dia em que anunciou o reajuste de 15% no Bolsa Família, que passa a valer em outubro. Entretanto, a oferta do medicamento no SUS não será imediata e depende de, ao menos, três etapas prévias que vão definir como e quem será beneficiado pelo medicamento.

"As canetas emagrecedoras vão ser oferecidas no SUS. Elas vão ampliar o acesso ao tratamento da obesidade, sempre com muita responsabilidade e protocolos médicos rigorosos, e proporcionar maior qualidade de vida para a população", afirmou o presidente em post nas redes sociais.

ETAPAS PENDENTES: Antes que o medicamento seja oferecido no SUS, é preciso que sejam superados três desafios:

Avaliação e recomendação da Comissão Nacional de Incorporação de Tecnologias no Sistema Único de Saúde (Conitec), seguida da decisão formal do Ministério da Saúde;

Criação de um protocolo de uso e de uma política pública para obesidade que ainda não existem em nosso sistema público de saúde

Definição do impacto orçamentário e da fonte de recursos.

PRÓS, CONTRAS E IMPACTO DA MEDIDA: A medida é avaliada como necessária, pode exigir um orçamento bilionário, mas tem potencial de atingir milhões de brasileiros que evitariam as complicações da obesidade que têm um alto custo para o SUS.

Hoje, o Brasil não tem no SUS um medicamento para tratar a doença. A única opção é a cirurgia bariátrica, que tem o desafio da fila para o acesso. Para especialistas ouvidos pelo g1, a oferta do medicamento é uma necessidade: mais de 60% da população brasileira está acima do peso e cerca de 25% já enfrenta um quadro de obesidade, que também é fator de risco para outras doenças.

Após o anúncio de Lula, o Ministério da Saúde informou ao g1 que as canetas "vão ser implementadas de forma responsável". Na nota, o ministério não detalha quando o acesso ao medicamento deve estar disponível, impacto orçamentário ou as etapas pendentes antes da oferta.

Lula durante evento de campanha com Padilha no qual prometeu a oferta das canetas emagrecedoras no SUS

Reprodução/TV Globo

O tema das canetas emagrecedoras - ou mesmo uma politicas específica sobre obesidade - não aparece no programa de governo de Lula registrado no TSE (saiba mais no podcast "O Assunto" sobre as propostas dos candidatos para a Saúde). Por outro lado, as canetas também não foram citadas por outros candidatos.

➡️ Por trás da fala do presidente, há uma série de movimentos que a pasta vem fazendo ao longo do ano:

O Ministério da Saúde pediu rapidez para a Anvisa nas aprovações de novas marcas no mercado nacional, o que ajudou a elevar de uma para 14 o número de versões de canetas emagrecedoras aprovadas em 2026.

Iniciou um projeto-piloto com semaglutida em Porto Alegre, hoje restrito a cerca de 250 pacientes com obesidade grave.

Nenhum desses passos, porém, significa que o medicamento está perto de chegar de graça na Farmácia Popular ou nos postos de saúde do país.

Necessidade do medicamento na rede pública

Para o médico Neuton Dorenelas, presidente da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia (SBEM), a incorporação do medicamento ao SUS é necessária — mas precisa ser tratada como política de Estado, e não como decisão de governo ou pauta eleitoral.

"A incorporação desse medicamento é uma necessidade. Precisa ser feito com a garantia de continuidade do fornecimento, como uma política de Estado, não de governo, de partido, como algo eleitoreiro. É preciso garantir que vai ter distribuição para todo o país, de forma igualitária", afirma. (Leia mais abaixo)

Abaixo, o g1 elenca o que há de concreto sobre a caneta no SUS e o que ainda falta avançar para que ela seja acessível na rede pública.

Medicamento ainda não está disponível no SUS

Freepik

O que há de concreto sobre as canetas no SUS?

Hoje, o único movimento concreto dentro da rede pública é um estudo-piloto, restrito a 250 pacientes na fila para a cirurgia bariátrica. São detalhes deste estudo que foram apresentados por Lula e Padilha no evento onde Lula assumiu o compromisso de oferecer as canetas no SUS.A pesquisa começou em 26 de junho deste ano e deve durar dois anos. Além desse estudo, não houve qualquer ampliação de acesso à semaglutida dentro do SUS.

O que existe, além do piloto, são movimentos no mercado privado que podem facilitar — mas não garantem — uma futura incorporação.

No início deste ano, caiu a patente que garantia à Novo Nordisk a exclusividade sobre a semaglutida, do Ozempic e Wegovy. Pouco antes do fim da exclusividade, o Ministério da Saúde pediu que a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) acelerasse a análise dos pedidos de registro de empresas nacionais e estrangeiras que tentavam registrar o medicamento no país.

E funcionou: só esse ano foram 10 aprovações de semaglutida, entre elas duas genéricas – uma novidade no Brasil. O movimento refletiu no preço. Hoje, as doses iniciais são vendidas a R$ 300 na farmácia, valor bem abaixo dos quase R$ 1 mil cobrados pelo Wegovy, semaglutida da Novo Nordisk, até 2025.

Por trás desse movimento havia um motivo: o ministro Alexandre Padilha já falava em incorporar o medicamento à rede pública -- ainda que isso não esteja no atual plano de governo de Lula para o próximo mandato. Em 2025, antes mesmo da queda da patente, ele vinha anunciando uma parceria para produção de canetas próprias no SUS com a EMS — primeira farmacêutica nacional a ter o registro aprovado. Até agora, porém, essa parceria não saiu do papel.

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O que ainda falta para chegar ao paciente?

Mas a inclusão de um medicamento não deve ser uma decisão apenas política ou de governo — são necessários ainda alguns passos:

Parecer favorável da Conitec

O primeiro deles é a avaliação da Comissão Nacional de Incorporação de Tecnologias no Sistema Único de Saúde (Conitec). O órgão, ligado ao Ministério da Saúde, avalia se um novo tratamento deve — e como deve — entrar na rede pública, considerando eficácia, segurança e custo.

Na prática, a Conitec avalia o pedido de incorporação e seus impactos. O Ministério quase sempre segue a recomendação da Conitec — reverter uma recomendação da comissão é raro.

É dela que depende qualquer novidade agora. A comissão se reuniu no dia 4 de setembro e fontes ouvidas pelo g1 afirmaram que havia a possibilidade de a semaglutida ser discutida naquele encontro. A decisão, no entanto, acabou sendo adiada, e, segundo a apuração, teria ficado para depois das eleições.

A próxima reunião está marcada para 7 de outubro — data que só ocorre depois do primeiro turno. O anúncio feito por Lula não cita se isso está previsto ou quando deve acontecer. Tecnicamente, sem essa aprovação, o medicamento não pode estar acessível.

Mesmo que a Conitec dê parecer favorável à incorporação, isso não significa que o medicamento chegará de imediato aos postos e hospitais da rede pública.

Por exemplo: o Ministério da Saúde anunciou três medicamentos para câncer de pulmão no SUS. Dois deles tiveram pareceres favoráveis da Conitec em 2024 e 2025, mas só vão ficar disponíveis na rede este ano.

Impacto orçamentário

O anúncio de Lula não especifica qual substância seria oferecida pelo SUS, mas os estudos em curso usam semaglutida como base — o que a torna a candidata mais próxima de uma eventual incorporação.

Nem o presidente nem o Ministério da Saúde informaram, após o anúncio, se o impacto orçamentário da medida já foi calculado. Esse foi um dos entraves para, até agora, o medicamento não estar no SUS na decisão da Conitec.

Na ocasião, o órgão estimou o impacto considerando uma dose inicial de R$ 727,25. Com isso, considerando o uso contínuo, o impacto orçamentário acumulado em cinco anos seria de R$ 7 bilhões.

🚨 ANTES: para entender o impacto orçamentário, é importante saber antes qual é o protocolo clínico, que define quem é que vai ter acesso. Isso é o que vai dizer quantas pessoas vão poder ter acesso ao medicamento. (Entenda mais abaixo)

Levando em conta os números do relatório — que apontam que, no primeiro ano (2026), ao menos 150 mil pessoas usariam o medicamento, considerando doses iniciais a partir de R$ 400 —, o impacto orçamentário seria de R$ 703 milhões.

Em cinco anos, mantido o mesmo ritmo de crescimento usado pela Conitec na análise de 2025, o acumulado pode chegar a R$ 3,6 bilhões. Mas o número pode ser ainda maior, porque é preciso considerar que a obesidade é uma doença crônica, e boa parte desses tratamentos tende a ser contínua.

Especialistas ponderam que, com relação ao custo sobre o sistema, é preciso levar em conta o quanto as doenças relacionadas à obesidade custam hoje: um paciente que sofre AVC custa mais de R$ 57 mil ao SUS, um paciente em diálise custa quase R$ 73 mil só no primeiro ano, um infarto gera custo médio de R$ 4,9 mil e uma internação por insuficiência cardíaca custa quase R$ 17,8 mil.

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Protocolo clínico

Atualmente, a rede pública não conta com nenhum medicamento aprovado para o tratamento da obesidade. E há uma grande expectativa, de médicos e pacientes, pelo acesso ao medicamento.

No entanto, é preciso entender uma informação que muita gente ignora: apesar do nome popular, essas canetas não são emagrecedoras. Elas são utilizadas para dois tratamentos bem definidos: diabetes tipo 2 e obesidade – duas doenças crônicas que precisam ser controladas e supervisionadas.

Com isso, a possibilidade de um medicamento como esse depende ainda de um protocolo clínico que defina parâmetros de acesso — ou seja, quem teria direito ao tratamento gratuito e em quais condições.

Isso ainda não existe no SUS.

Para ajudar a construir uma diretriz e contribuir para entender se isso funciona na rede pública, com as particularidades que tem, o Ministério da Saúde anunciou em junho desse ano um projeto piloto com pacientes à espera da bariátrica.

Estão incluídos 250 pacientes que vão receber semaglutida em um protocolo acompanhado por profissionais da rede pública. A ideia é que, em dois anos de projeto, possa se compreender como aplicar isso à rede pública como um todo. A primeira aplicação só aconteceu no dia 26 de junho deste ano.

Acesso ao medicamento não pode ser questão de status social

Para o médico Neuton Dorenelas, presidente da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia (SBEM), a incorporação do medicamento ao SUS é necessária — mas precisa ser tratada como política de Estado, e não como decisão de governo ou pauta eleitoral.

"A incorporação desse medicamento é uma necessidade. Precisa ser feito com a garantia de continuidade do fornecimento, como uma política de Estado, não de governo, de partido, como algo eleitoreiro. É preciso garantir que vai ter distribuição para todo o país, de forma igualitária", afirma.

Segundo ele, o ideal seria que o paciente tivesse acesso a uma linha de cuidado completa, com médicos, educadores físicos, nutricionistas, equipe e equipamentos necessários. Mas isso leva tempo — e, segundo Dorenelas, o paciente não tem esse tempo.

Apesar disso, o médico reforça que será necessário estabelecer critérios clínicos bem definidos antes da incorporação, tanto para dimensionar o impacto orçamentário quanto para garantir que os pacientes incluídos tenham o tratamento.

"A nossa indicação é que sejam incluídos os pacientes com obesidade diagnosticada, pacientes com sobrepeso mas com comorbidades como diabetes e hipertensão. Mas é preciso ver o que o Estado pode pagar. Isso vai acabar delimitando os critérios”, explica.

Para a pesquisadora Maria Laura Precinotto, doutoranda em Saúde Pública pela USP, os medicamentos são uma demanda importante no tratamento da obesidade, e não se pode permitir que o acesso fique restrito a uma parcela da população.

Porém, ela defende que uma eventual incorporação seja acompanhada da estruturação de uma política pública, com equipes multidisciplinares, centros especializados e um plano nacional para o tratamento da obesidade.

"É preciso que o Ministério da Saúde debata o acesso ao tratamento e ao acompanhamento, mas sem reducionismo. Não dá para achar que falar de obesidade no SUS é apenas inserir os GLP-1 e que isso resolve o problema no país", afirma.

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