Matemática sem decoreba: como a Unicamp testa raciocínio além das fórmulas
A prova de matemática da Unicamp tem como uma de suas características abordar questões relacionadas ao cotidiano, indo além da decoreba e exigindo do estudante análise de contexto e interpretação de texto para resolver os problemas. Para ajudar os vestibulandos nesta reta final, o g1 ouviu dois professores da disciplina que explicam o perfil da prova e dão exemplos de como as questões matemáticas
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A prova de matemática da Unicamp tem como uma de suas características abordar questões relacionadas ao cotidiano, indo além da decoreba e exigindo do estudante análise de contexto e interpretação de texto para resolver os problemas.
Para ajudar os vestibulandos nesta reta final, o g1 ouviu dois professores da disciplina que explicam o perfil da prova e dão exemplos de como as questões matemáticas podem se conectar com outras áreas (veja mais detalhes abaixo).
📚 Esta reportagem compõe o projeto Vestibulou, uma iniciativa do g1 Campinas para divulgar informações relacionadas aos principais vestibulares e ajudar na preparação dos estudantes.
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Interdisciplinaridade
Para o coordenador pedagógico e professor do Cursinho Popular Herbert de Souza, Pedro Lucas, esse tipo de abordagem quebra a ideia de que as áreas do conhecimento são segmentadas e separadas. “Na universidade e no mundo real, os conhecimentos estão conectados”. Esse é um dos primeiros passos para entender a prova.
“O tempo todo trabalhamos com conteúdos interdisciplinares e com situações em que diferentes áreas se relacionam. A prova de matemática da Unicamp tem um caráter cada vez mais interdisciplinar, convocando diversas áreas de conhecimento para solucioná-las, como a biologia e a genética”.
“Desde a sua gênese, a prova de matemática da Unicamp tem como intencionalidade abordar questões relacionadas ao cotidiano. Ela fornece informações que devem ser organizadas pelos alunos na seara do raciocínio e não da decoreba”, explica o professor de matemática do Colégio Oficina do Estudante, Rodrigo Serra.
A partir dessas informações, os estudantes devem oferecer soluções para as situações e problemas encontrados. Segundo ele, o grande objetivo da prova é verificar se o aluno é capaz de, diante de situações do cotidiano, encontrar as respostas.
“Para isso, o uso da matemática é importante, seus conceitos e suas definições, mas o foco não é a memorização e sim o raciocínio, a interpretação de texto e a organização das informações”, pontua Serra.
O professor detalha que, para resolver as questões de matemática da Unicamp, a memorização é uma parte do processo, não ele todo. “Eu posso decorar o CPF de um monte de gente, mas dado sem relevância não resolve nada. A informação sim, que é um dado com relevância, e está no texto do enunciado, que precisa ser lido e compreendido”.
A partir disso, o aluno deve mobilizar seus conhecimentos por meio de inteligências múltiplas. “A memorização é um dos fatores acionados nesse momento, mas não é único nem determinante”.
Como é a prova de matemática na prática?
Veja a seguir exemplos de questões passadas para entender melhor como os temas do cotidiano aparecem nas provas de matemática da Unicamp.
(Unicamp 2025) Um telefone celular custava R$ 2.000,00 em janeiro. Em abril, seu preço foi reajustado em 10%. Em junho, o preço foi novamente reajustado em 10%. Numa promoção, em novembro, Rogério finalmente comprou, com um desconto de 20%, o celular.
Quanto ele pagou pelo aparelho?
a) R$ 1.896,00
b) R$ 1.936,00
c) R$ 2.000,00
d) R$ 2.052,00
Comentário do professor: de acordo com Serra, neste caso, a questão traz um problema do cotidiano, que é a compra de um celular, e sua resolução não exige fórmula, mas conhecimento prévio de porcentagem.
Resolução
abril: reajuste de 10%, calculando 10% de R$ 2.000 = 10/100. R$ 2.000 = R$ 200
junho: R$ 2.200 (R$ 2000 + 10% de abril), calculando 10% sobre R$ 2.200, tem-se R$ 220,00.
Logo, o preço em novembro, após os reajustes de abril e junho, é R$ 2.420.
Em novembro, há um desconto de 20% sobre R$ 2.420,00, o que equivale a dois descontos de 10% (R$ 242,00), totalizando um desconto de R$ 484,00. Portanto, o valo pago pelo aparelho foi R$ 1.936,00 (R$ 2420,00 – R$ 484,00)
O professor compartilha ainda uma outra resolução mais linear que seria: após os reajustes sucessivos, o preço pago pelo aparelho foi de R$ 2.000,00⋅(1+0,10)⋅(1+0,10)⋅(1-0,20) = R$ 2.000,00 ⋅ 1,1 ⋅ 1,1 ⋅ 0,8 = R$1.936,00
ALTERNATIVA: B
(Unicamp 2024) Todo final de semana, as amigas Ana, Bruna e Carol se encontram em um parque para andar de bicicleta ou de patins. Nesta brincadeira, a escolha entre patins e bicicleta é feita usando a seguinte regra:
Se Ana anda de patins, então Carol também anda de patins. Bruna anda de patins apenas quando Carol anda de bicicleta. Sabendo que neste final de semana Carol andou de patins, então é necessariamente verdade que:
a) Ana andou de patins
b) Ana não andou de patins
c) Bruna andou de patins
d) Bruna não andou de patins
Comentário do professor: este é um exemplo de questão puramente de lógica matemática, exigindo uma leitura importante do aluno sobre o que implica ou não implica no problema e sem necessidade de qualquer aplicação de fórmula.
Resolução: como Bruna anda de patins apenas quando Carol anda de bicicleta, se Carol andou de patins, então, é possível concluir que Bruna não andou de patins.
ALTERNATIVA: D
Dica de ouro para resolver com contexto e agilidade
Imagem aérea do campus da Unicamp em Campinas
Reprodução/EPTV
O coordenador pedagógico destaca ainda que nem sempre o método tradicional é o mais eficiente para resolver as questões de matemática. “Em uma equação de segundo grau, por exemplo, pelo método tradicional, é preciso identificar os coeficientes, aplicar a fórmula resolutiva e fazer uma série de cálculos”.
“É um processo trabalhoso, que deixa a questão mais longa e cansativa e aumenta a chance de erro. Em muitos casos, existem outros caminhos para chegar ao resultado. Quando paramos para analisar a questão por outro contexto e tentamos enxergar o problema por uma perspectiva diferente, pode surgir uma maneira muito mais prática e rápida de resolvê-lo. Nem sempre será um caminho fácil, mas pode ser mais eficiente”, defende.
Lucas reforça que, pensando no vestibular, otimizar o tempo é fundamental. “Na prova da Unicamp, por exemplo, são 72 questões em cinco horas, o que representa um tempo bastante limitado. Por isso, desenvolver um raciocínio lógico e pensar sobre a questão, em vez de simplesmente seguir o caminho tradicional de aplicar uma fórmula e fazer contas, pode ser muito mais interessante para o aluno”, finaliza.
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