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quinta-feira, 15 de outubro de 2026
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O PIM precisa de mais do que fábricas para crescer

Polo Industrial de Manaus Divulgação Antes de produzir, uma das questões fundamentais é analisar como uma indústria irá receber insumos e entregar mercadorias. Essa equação é importante porque a logística local precisa acompanhar os planos de expansão do Polo Industrial de Manaus (PIM), com a mesma atenção dedicada às linhas de montagem. Um projeto de celulose em Alto Araguaia, no sul de Mato Gros

Por Redação Publicado em 15 de outubro de 2026 às 16:16 5 min de leitura

Conteúdo de G1 — ler no site de origem

O PIM precisa de mais do que fábricas para crescer
Publicado originalmente por [fonte]

Polo Industrial de Manaus

Divulgação

Antes de produzir, uma das questões fundamentais é analisar como uma indústria irá receber insumos e entregar mercadorias. Essa equação é importante porque a logística local precisa acompanhar os planos de expansão do Polo Industrial de Manaus (PIM), com a mesma atenção dedicada às linhas de montagem.

Um projeto de celulose em Alto Araguaia, no sul de Mato Grosso, oferece um ponto de partida para essa discussão. O município fica na Amazônia Legal, mas está inserido no bioma Cerrado, uma distinção entre o recorte administrativo da região e suas características ambientais.

A Euca Energy voltou ao noticiário neste mês com previsões de investimento de aproximadamente US$ 2 bilhões e capacidade de 2 milhões de toneladas anuais. As publicações mencionam geração de energia, ramal ferroviário e terminal de cargas. O novo cronograma, porém, ainda carece de confirmação pública direta do empreendedor.

O empreendimento tem um histórico anterior. Em 2019, a Prefeitura de Alto Araguaia informou a obtenção da licença prévia e divulgou investimento estimado em R$ 9,5 bilhões. Naquele ano, também apresentou as conexões rodoviárias e ferroviárias com o Porto de Santos como vantagens para atrair indústrias. Isso demonstra a importância atribuída ao escoamento, mas não comprova que a Euca tenha assegurado toda a operação até o porto paulista.

O caso interessa ao Amazonas porque a viabilidade industrial depende da articulação entre fábrica, energia, transporte e mercado. Equipamentos modernos e demanda pelos produtos precisam ser acompanhados de regularidade no abastecimento e na distribuição.

O custo da imprevisibilidade

O PIM faturou R$ 227,67 bilhões em 2025 e destina sua produção majoritariamente ao mercado brasileiro, segundo a Superintendência da Zona Franca de Manaus (Suframa). Componentes e matérias-primas chegam a Manaus, enquanto produtos acabados seguem para os centros consumidores, o que exige eficiência nos dois sentidos.

Quando uma rota perde capacidade, o problema ultrapassa o frete. A indústria pode precisar antecipar compras, manter estoques maiores, reorganizar entregas ou recorrer a alternativas mais caras. O capital mobilizado para enfrentar a incerteza deixa de estar disponível para outras necessidades do negócio.

Essa pressão torna a previsibilidade um fator de competitividade. Mudanças frequentes de prazo, capacidade e despesa dificultam o planejamento, especialmente quando compromissos comerciais já foram assumidos.

Os investimentos já estão acontecendo

O setor logístico amazonense tem respondido a esses desafios. O Grupo Chibatão mobilizou um píer flutuante para Itacoatiara como alternativa às restrições de navegação durante a estiagem. O Super Terminais também estruturou operações no município e vem investindo em modernização e capacidade operacional.

Na armazenagem e no apoio aduaneiro, a Aurora EADI amplia investimentos em infraestrutura, segurança e tecnologia, buscando oferecer mais flexibilidade ao planejamento das indústrias. Aurora EADI e Super Terminais integram o mesmo grupo econômico e atuam em etapas complementares da cadeia logística.

Esse cenário mostra que há empresas aplicando recursos para preservar o fluxo de cargas e acompanhar a demanda regional. Reconhecer esse esforço é necessário para dimensionar corretamente o problema: os gargalos persistem mesmo com iniciativas privadas relevantes.

A coordenação também já ocorre. Em encontro realizado em 1º de outubro, o Centro da Indústria do Estado do Amazonas (Cieam) reuniu operadores portuários, administração aeroportuária e Receita Federal para discutir contingências, transbordos em Itacoatiara e transporte aéreo para cargas de alto valor e insumos urgentes.

A questão é transformar essa articulação em continuidade, com responsabilidades definidas e planejamento que acompanhe tanto o comportamento dos rios quanto o crescimento industrial.

Infraestrutura como política industrial

A comparação com Mato Grosso exige cuidado. Celulose e produtos eletroeletrônicos têm características, mercados e necessidades de transporte diferentes. Um corredor ferroviário para grandes volumes de celulose não constitui solução automática para Manaus.

A lição está em planejar a produção junto com as condições de abastecimento e distribuição. No Amazonas, investimentos em terminais, equipamentos e armazenagem precisam ser complementados por ações nas vias de acesso, manutenção e sinalização dos canais de navegação, informação hidrológica e agilidade aduaneira. Novas rotas também exigem avaliação econômica, operacional e ambiental.

Uma empresa pode ampliar seu terminal e modernizar equipamentos, mas a capacidade de utilizar essa estrutura continua condicionada às condições de acesso e navegação. Por isso, os investimentos privados e a atuação pública precisam avançar de forma complementar.

A expansão do PIM deve entrar nessa conta desde o início, pois atrair empresas e ampliar fábricas aumenta a demanda sobre os sistemas que as abastecem. Então, é preciso garantir que os avanços logísticos já em curso tenham escala e continuidade para sustentar esse crescimento.

A pergunta central não é apenas quantas fábricas Manaus consegue atrair, mas, sobretudo, com que regularidade, custo e segurança elas conseguirão produzir e atender seus mercados. Os investimentos realizados pelo setor logístico são parte dessa resposta; a infraestrutura compartilhada e a coordenação permanente precisam completar esse caminho.

Cristina Monte é jornalista, colunista e analista de negócios, com atuação na cobertura de indústria, inovação e desenvolvimento econômico na Amazônia.

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