Professor da Ufac é afastado após denúncia de assédio feita por estudante: ‘Minha vida foi destruída’
Professor da Ufac é afastado após denúncia de assédio feita por estudante O professor de Medicina Veterinária da Universidade Federal do Acre (Ufac) Eduardo Mitke Brandão Reis foi afastado cautelarmente das funções por 60 dias após uma estudante do curso denunciá-lo por supostas condutas de importunação sexual. A medida foi publicada no Diário Oficial da União (DOU) na última sexta-feira (25), enq
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Professor da Ufac é afastado após denúncia de assédio feita por estudante
O professor de Medicina Veterinária da Universidade Federal do Acre (Ufac) Eduardo Mitke Brandão Reis foi afastado cautelarmente das funções por 60 dias após uma estudante do curso denunciá-lo por supostas condutas de importunação sexual. A medida foi publicada no Diário Oficial da União (DOU) na última sexta-feira (25), enquanto a universidade apura o caso em um processo administrativo. O g1 entrou em contato com o professor e com a defesa dele e, até a última atualização desta reportagem, não obteve retorno.
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A estudante Isabele da Costa Barbosa, de 27 anos, afirma que as supostas investidas começaram em 2023, quando cursava a disciplina de Forragicultura ministrada pelo professor. Segundo ela, a situação se estendeu por anos e passou a afetar a vida acadêmica e profissional. Um boletim de ocorrência n a Delegacia Especializada de Atendimento à Mulher (Deam) foi registrado em 29 de maio deste ano.
A portaria que determinou o afastamento de Eduardo foi assinada pelo reitor da Ufac, Josimar Batista Ferreira, e estabelece que ele fique afastado do exercício do cargo por 60 dias, sem prejuízo da remuneração. “Eu cansei de tudo isso, a minha vida foi destruída por esse cara, eu perdi meu emprego, perdi meu carro, perdi tudo que eu tinha pra tentar passar na matéria desse cara. Eu tô presa nisso”, afirmou em entrevista ao g1.
Isabele da Costa Barbosa, de 27 anos, denuncia professor da medicina veterinária da Ufac por assédio
Arquivo pessoal
‘Ficava com medo dele me marcar’
Isabele contou que, quando começaram as mensagens e as supostas investidas, ainda não tinha vivido uma situação semelhante e não sabia como reagir. Ela afirmou que também já havia ouvido relatos de outros estudantes sobre um possível comportamento semelhante do professor.
Segundo a estudante, ele enviava mensagens pelas redes sociais, inclusive fazendo convites para que ela fosse até a sala dele. O receio de sofrer consequências acadêmicas fez com que ela evitasse confrontá-lo diretamente, respondendo às mensagens de maneira evasiva.
“E eu já tinha escutado coisas dos alunos falando que quando ele começava a investir com as alunas, se elas se negassem, elas meio que eram marcadas por ele [...] Então eu nunca cortava ele de uma vez porque eu ficava com medo dele me marcar na matéria como muitos alunos já relatavam”, relatou.
Isabele trabalhava como auxiliar de veterinário em uma clínica e afirmou que decidiu deixar o emprego para conseguir se dedicar aos estudos e tentar concluir a disciplina. Segundo ela, também vendeu o carro que tinha, já que não conseguiria pagar o veículo por não ter remuneração.
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A estudante está no curso há quase dez anos. Ela ingressou na universidade aos 17 anos e afirma já ter concluído entre 80% e 90% da graduação. O problema, segundo ela, é que a disciplina ministrada pelo professor é pré-requisito para outras matérias.
Ela afirma que, mesmo após parar de responder às mensagens do professor, continuou sendo reprovada na disciplina. Segundo Isabele, em uma das mensagens, o professor teria escrito: 'Poxa, faz dois anos que você não me responde, hein'.
“Eu desisti do meu emprego, de ter uma carreira profissional que eu já tava construindo. Eu desisti de tudo isso pra tentar passar na matéria desse homem”, disse.
Eduardo Mitke Brandão Reis é professor da Ufac e foi afastado, de forma cautelar, após denúncias de assédio
Reprodução/Lattes
Disciplina nas férias e disputa pela oferta da turma
Um dos episódios que, segundo Isabele, aumentou sua preocupação, ocorreu quando a Medicina Veterinária ofertou uma turma de Forragicultura no formato de Disciplina em Período Letivo Especial (DPLE), durante as férias.
De acordo com documentos obtidos pelo g1, a disciplina foi inicialmente designada a outro professor. Eduardo, porém, apresentou um despacho questionando a abertura da turma. 👉 No documento, ele argumenta, entre outros pontos, que a disciplina é ofertada regularmente desde 2009, que não haveria falta de vagas nas turmas de 2026 e que o professor inicialmente indicado não teria expertise técnica para ministrá-la.
O docente também solicitou informações sobre os alunos matriculados, incluindo quais eram repetentes, quantas vezes haviam repetido a disciplina e quais estudantes poderiam ser prejudicados caso a turma não fosse ofertada.
Para Isabele, a situação significou a perda de uma alternativa para concluir a disciplina sem precisar passar novamente pelo professor.
“Ele tem o monopólio dessa matéria tanto na veterinária quanto na agronomia, o que gera um poder dele de fechar as pessoas o quanto ele quiser porque, por mais que eu corra, se eu quiser fazer em outro curso, eu não posso porque a outra pessoa que tá dando a matéria no outro curso é ele”, afirmou.
Segundo ela, cerca de 40 estudantes fizeram a disciplina nas férias. Isabele afirmou que apenas seis foram aprovados, sendo dois da Medicina Veterinária e os demais da Agronomia. Ela disse que passou a estudar exclusivamente para a matéria.
“Eu não tinha emprego, eu não tinha nada. Eu só fazia estudar manhã, tarde, noite. Eu só estudava, estudava, estudava, estudava e as minhas notas não saíam de 4 a 5”, contou.
Isabele da Costa Barbosa, de 27 anos, denuncia professor da medicina veterinária da Ufac por assédio
Arquivo pessoal
Denúncia
Em meio à situação, Isabele passou a publicar críticas nas redes sociais sobre a forma como a disciplina estava sendo conduzida. Ela afirmou que fez uma publicação pouco antes de uma prova e que, depois disso, o professor cancelou a avaliação e deixou grupos de comunicação ligados à Medicina Veterinária.
Isabele disse que procurou inicialmente a Delegacia Especializada de Atendimento à Mulher (Deam), mas foi orientada a levar o caso à Polícia Federal (PF) por envolver um servidor de uma instituição federal. Segundo ela, posteriormente contratou um advogado e formalizou a denúncia.
A estudante também falou ter aberto um processo administrativo na Ufac. Segundo seu relato, porém, ficou meses sem receber uma resposta sobre os procedimentos.
Ela conta que o reitor Josimar Ferreira, após a repercussão do caso, se colocou à disposição para recebê-la. De acordo com Isabele, durante a conversa, ele informou que seriam tomadas providências e que um novo processo havia sido aberto porque o procedimento anterior não teria chegado à reitoria.
“Eu já estava com a minha vida toda lascada, chorando e estudando, eu tava folheando meu caderno e pensando no que ia ser da minha vida que esse homem não ia me deixasse em paz [...] ele é considerado lá dentro da veterinária como um elefante branco que ninguém fala sobre. Eu já estava tanto tempo dentro ali que eu corria o risco de ser jubilada por conta disso”, complementou.
Universidade Federal do Acre afastou servidor por 60 dias
Jhenyfer de Souza/g1
‘Eu não vou esquecer
Para Isabele, expor a própria história nas redes sociais foi uma decisão que tomou apenas depois de outras tentativas de buscar ajuda. A estudante disse que teme que o afastamento seja apenas temporário e que, ao fim dos 60 dias, o professor retorne antes que a situação seja resolvida.
A estudante diz que pretende acompanhar as investigações na universidade e na Polícia Federal. Ela afirma que ainda não recebeu retorno sobre o procedimento federal e que pretende procurar pessoalmente a instituição para saber a situação do caso.
“Tudo que eu mais queria na minha vida era passar na matéria desse cara pra poder ter minha vida em paz, sossegada. Eu nunca quis estar expondo minha cara, correndo riscos. Eu tive isso como última opção, já como grito final”, afirmou.
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