Ir para o conteúdo principal
domingo, 27 de setembro de 2026
AGORA RIO
Cidades

Seca em lagoa revela fósseis de animais pré-históricos e pinturas rupestres de 10 mil anos em Caruaru

Ossos de animais pré-históricos são encontrados em lagoa de Caruaru No interior de Pernambuco, a 150 quilômetros do Recife, fósseis de animais pré-históricos podem ser encontrados no sítio Carneirinho, zona rural de Caruaru, no Agreste do estado. Após a seca em um reservatório, já foram encontrados fragmentos de ossos de mamíferos como preguiças-gigantes, tatus-gigantes e até mastodontes. No mesmo

Por Redação Publicado em 27 de setembro de 2026 às 04:00 6 min de leitura

Conteúdo de G1 — ler no site de origem

Seca em lagoa revela fósseis de animais pré-históricos e pinturas rupestres de 10 mil anos em Caruaru
Publicado originalmente por [fonte]

Ossos de animais pré-históricos são encontrados em lagoa de Caruaru

No interior de Pernambuco, a 150 quilômetros do Recife, fósseis de animais pré-históricos podem ser encontrados no sítio Carneirinho, zona rural de Caruaru, no Agreste do estado. Após a seca em um reservatório, já foram encontrados fragmentos de ossos de mamíferos como preguiças-gigantes, tatus-gigantes e até mastodontes. No mesmo local, também já foram encontradas pinturas rupestres de 10 mil anos atrás.

A descoberta ocorreu quando o agricultor José Carlos decidiu limpar o reservatório de pedras que havia secado após um longo período de estiagem em 2013. No local, que fica a 40 quilômetros do centro de Caruaru, ele encontrou estruturas que inicialmente pareciam pedras comuns, mas que se revelaram ossadas fossilizadas de grandes proporções.

Em entrevista para a TV Asa Branca, o agricultor contou que a primeira peça encontrada por ele foi o crânio de um animal de grande porte. A primeira decisão tomada foi comunicar a descoberta aos pesquisadores da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE). "Levei para lá (Universidade Federal de Pernambuco). Eles levaram. E depois continuaram levando as coisas para preservar para lá. A cabeça completa é grande, era enorme. Várias peças nós levamos para lá”, contou José Carlos.

Após a descoberta inicial, as escavações foram interrompidas para evitar que a exposição ao tempo danificasse as peças remanescentes. Com o retorno das chuvas nos anos seguintes, a água voltou a cobrir parte das ossadas no reservatório natural.

Explicação científica e o ecossistema do Pleistoceno

De acordo com o biólogo Alexandre Nunes, esses grandes mamíferos viveram durante o período conhecido como Pleistoceno, época geológica que durou de cerca de 2,6 milhões até 11.700 anos atrás, marcando a última grande Era do Gelo e o surgimento do gênero humano.

"Quando os dinossauros desapareceram, há 66 milhões de anos, isso abriu espaço para que a megafauna surgisse muito depois. Aí, quando a megafauna surgiu, animais de grande porte, os mamíferos de grande porte, eles surgiram na época chamada Pleistoceno. E nesse período eles dominavam o planeta. E aí a gente encontrava o toxodonte, tigre-dente-de-sabre, a preguiça-gigante, o tatu, animais que viviam nesse local", explica o biólogo.

O especialista aponta que a região contava com uma vegetação abundante devido à ligação entre os biomas da Amazônia e da Mata Atlântica. "O interessante é que a Amazônia era anexada à Mata Atlântica, quer dizer, a gente tinha esse corredor de vegetação. Como eram animais de grande porte, eles se alimentavam dessa vegetação farta, que depois, com a Era do Gelo, isso foi retraindo", complementa Alexandre.

Estresse alimentar e marcas nos dentes

Ainda conforme os vestígios verificados no local, análises nos dentes indicam falhas e furos nas estruturas fossilizadas encontradas no sítio Carneirinho. O fenômeno é conhecido como hipoplasia de esmalte, causada pela fome que os seres sentiram.

Alexandre Nunes explica ainda a estrutura física das peças examinadas, destacando a porosidade interna característica dos tecidos ósseos. "Veja, isso aqui são pedaços, fragmentos de ossos, mas pela espessura, pelo tamanho, esse aqui, por exemplo, provavelmente deve ter sido de uma preguiça, certo? E o que chama atenção desses ossos, porque, como do ser humano ele é compacto por fora e ele é poroso por dentro."

"Isso provavelmente é a medula, é o osso que aqui produz sangue. Então, veja, são ossos de animais que já existiram e são fragmentos. E veja o tamanho, a espessura, a largura, o peso deles, certo? Isso é um valor imensurável desses ossos", afirma Alexandre.

Fóssil de medula de preguiça-gigante é encontrado em sítio de Caruaru

Robson Santos/TV Asa Branca

Ponto de encontro da fauna pré-histórica

O reservatório natural de rochas no Sítio Carneirinho funcionava como um bebedouro para os animais pré-históricos há milhares de anos. A concentração de fósseis no local explica-se pelo comportamento da fauna e pela ação de predadores. Os animais se reuniam na área para beber água, o que gerava conflitos territoriais e atraía predadores. As carcaças dos que morriam nas margens deslizavam para as partes mais profundas do reservatório rochoso.

Além dos fósseis da megafauna, as formações rochosas do sítio abrigam registros de arte rupestre. As pinturas indicam a presença humana na mesma região há cerca de 10 mil anos.

Pinturas rupestres de 10 mil anos atrás encontradas em sítio de Caruaru

Robson Santos/TV Asa Branca

A preservação e o estudo detalhado dessas peças são defendidos por especialistas como caminho para entender a evolução ambiental. O biólogo Alexandre Nunes destaca que a criação de um espaço de exposição traria benefícios para a comunidade local.

"É de extrema importância a Universidade fazer um estudo e que seja feito um museu, porque isso serve para a educação, é para preservar a história da nossa região. E se fosse aqui na região, seria melhor ainda, porque atrairia o turismo. Isso é bom para a comunidade, quer dizer, todos saem ganhando. É um papel importante para a educação e para a história, para a compreensão da vida no planeta", argumenta o biólogo.

O coordenador do Laboratório de Antropologia e Arqueologia da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), Sandro Guimarães de Sales, reforça o valor científico dos achados para o ambiente acadêmico e alerta para os perigos de escavações sem acompanhamento profissional.

"Vale fazer uma advertência às pessoas que, porventura, encontrem ossada semelhante, que procurem a Universidade Federal de Pernambuco, porque esse material tem uma relevância científica... eh... incalculável. No entanto, quando há uma intervenção no local, esse material tende a perder a importância, o valor científico. Pelo menos, ter seu valor científico diminuído, minimizado. Então este é o apelo que a gente faz", finaliza o coordenador.

Leia mais