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Terapia, atividades com os pés e bicicleta adaptada: como jovem nascido sem braços que conquistou CNH construiu autonomia ao longo da vida

Jovem que nasceu sem os braços conquista CNH após aprender a dirigir com os pés em MG Reiner Jesus Martins, de 20 anos, nasceu sem os dois braços e, desde os primeiros meses de vida, passou por terapias e acompanhamentos que ajudaram no desenvolvimento da autonomia. Hoje, estudante de agronomia da Universidade Federal de Lavras (UFLA), ele mora sozinho em Lavras (MG), dirige e compartilha nas rede

Por Redação Publicado em 26 de setembro de 2026 às 00:01 10 min de leitura

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Terapia, atividades com os pés e bicicleta adaptada: como jovem nascido sem braços que conquistou CNH construiu autonomia ao longo da vida
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Jovem que nasceu sem os braços conquista CNH após aprender a dirigir com os pés em MG

Reiner Jesus Martins, de 20 anos, nasceu sem os dois braços e, desde os primeiros meses de vida, passou por terapias e acompanhamentos que ajudaram no desenvolvimento da autonomia. Hoje, estudante de agronomia da Universidade Federal de Lavras (UFLA), ele mora sozinho em Lavras (MG), dirige e compartilha nas redes sociais a rotina de quem aprendeu a fazer as atividades do dia a dia de uma maneira própria.

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Natural de Juatuba, na Região Metropolitana de Belo Horizonte, Reiner conta que a mãe descobriu ainda durante a gravidez que ele nasceria sem os braços. A partir da descoberta, ela, que já tinha outros dois filhos, passou a buscar informações e instituições que pudessem ajudar no desenvolvimento e na criação do caçula.

Desde bebê, Reiner foi atendido por instituições como a Associação de Assistência à Criança Deficiente (AACD) e APAEs de diferentes cidades. Também fez terapia ocupacional, equoterapia e hidroterapia.

"A terapia é muito baseada na questão de te dar a forma para você encontrar a maneira de fazer as coisas", explica o estudante.

Como jovem nascido sem braços que conquistou CNH construiu autonomia ao longo da vida

Reiner Jesus Martins/Arquivo pessoal

Dentro de casa, o estímulo à independência também fazia parte da rotina. Segundo Reiner, a mãe sempre buscou ensiná-lo a realizar as tarefas sozinho, com a compreensão de que ela e outros familiares não estariam ao lado dele o tempo todo.

Foi assim que ele aprendeu a usar principalmente os pés para realizar atividades que normalmente são feitas com as mãos. Ele também utiliza a boca, o queixo e o tronco em algumas situações.

"Hoje, para mim, meus pés são como as mãos", conta o jovem.

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Autonomia começou na infância

Reiner descreve a infância como normal, apesar da rotina diferente de outras crianças. Ele estudava em escola pública e também precisava conciliar as aulas com os atendimentos.

Como a família morava em Juatuba e muitas terapias eram realizadas em Betim (MG), a mãe e o filho dependiam de ônibus para se deslocar. A rotina começava cedo e, em alguns dias, terminava apenas depois das aulas.

A família também buscava garantir que ele tivesse convivência com outras crianças, participasse das atividades escolares e desenvolvesse diferentes aspectos da vida.

Família foi essencial na construção da autonomia do jovem

Reiner Jesus Martins/Arquivo pessoal

A mãe teve papel central nesse processo. Ela deixou o emprego na área comercial de uma gráfica em Belo Horizonte quando descobriu a condição do filho e passou a se dedicar à criação dele. O pai continuou trabalhando.

Além dos pais, Reiner destaca o apoio dos irmãos, avós, padrinhos e outros familiares. Um dos exemplos foi o padrinho, que construiu uma bicicleta adaptada para ele quando ainda era criança.

O veículo não tinha um guidão convencional e permitia que Reiner conduzisse a bicicleta utilizando o tronco. Até hoje, a bicicleta é guardada pela família.

Bicicleta adaptada construída pelo padrinho de Reiner continua guardada

Reiner Jesus Martins/Arquivo pessoal

Aprendendo a lidar com os olhares

Ao longo da infância, Reiner aprendeu a escrever, comer, escovar os dentes e se vestir usando os pés. Para ele, muitas dessas habilidades foram adquiridas de maneira tão natural que nem consegue dizer exatamente quando aprendeu cada uma delas.

"O corpo meio que se adapta à realidade. Se ele não tem os braços, o corpo vai se adaptar da forma que tem", afirma.

A autonomia também foi construída diante de situações de preconceito e de pessoas que não sabiam como reagir à deficiência. Ele conta que, quando era criança, já foi chamado de "sem braço" por outras crianças. Em uma dessas situações, a orientação da mãe foi para que Reiner respondesse e tentasse conversar com o menino.

"Eu falei assim: 'Olha, tudo bem, eu sou sem braço, sim, mas meu nome é Reiner. E o seu? Você quer ser meu amigo?'"

Para ele, situações como essa ajudaram a aprender a lidar com olhares, perguntas e atitudes de pessoas que não estavam acostumadas a conviver com alguém com deficiência.

Reiner afirma que ainda enfrenta situações de capacitismo, quando as pessoas duvidam de sua capacidade de realizar determinadas atividades. "Eu provo para mim mesmo que eu consigo e, depois, eu vou e provo para as outras pessoas", conta.

Ao mesmo tempo, ele reconhece que há momentos em que gostaria de ter os braços. "Tem hora que eu xingo, reclamo, porque eu queria ter os braços. Queria viver como uma pessoa comum com os braços também."

Segundo ele, a forma encontrada para lidar com essa realidade foi valorizar o que consegue fazer e o apoio que recebeu da família.

A conquista de dirigir sozinho

Reiner durante as aulas de direç

Reiner Jesus Martins/Arquivo pessoal

O processo para obter a carteira começou ainda no ano passado. Por ser uma pessoa com deficiência, Reiner precisou passar por uma avaliação de uma junta médica do Detran, que definiu as condições e adaptações necessárias para que ele pudesse dirigir.

Segundo ele, uma das dificuldades foi encontrar uma autoescola que tivesse um veículo compatível com as adaptações indicadas. Depois de procurar, encontrou a estrutura necessária em Pará de Minas.

A primeira aula foi um momento de teste. Reiner precisava entender como executar os movimentos necessários para conduzir o veículo utilizando as adaptações. O veículo tinha câmbio automático, acelerador invertido para o lado esquerdo, comandos do painel adaptados para serem acionados com os membros inferiores e um "pomo", dispositivo instalado no volante para facilitar a direção.

Depois das aulas práticas e da prova, a aprovação veio no dia 5 de agosto.

"Logo depois que acabou o exame, que eu recebi o papelzinho escrito aprovado, eu até chorei de emoção", lembra.

Jovem que nasceu sem os braços conquista CNH após aprender a dirigir com os pés em MG

Reiner Jesus Martins/Arquivo pessoal

Apesar da conquista, Reiner acredita que o processo para que pessoas com deficiência consigam tirar a CNH ainda pode ser aprimorado.

"Acho que poderia melhorar principalmente na acessibilidade, na informação e na preparação dos profissionais. Um processo mais simples, rápido, de fácil acesso, com mais preparo dos profissionais, facilitaria para que mais pessoas com deficiência tivessem essa oportunidade e conquistassem mais autonomia", afirma.

Ele afirma que a experiência revelou dificuldades que vão além da falta de veículos adaptados. Para ele, ainda existe falta de preparo para atender pessoas com deficiência. "Muita má vontade, muito julgamento e muita questão do capacitismo ainda, principalmente na junta médica", diz.

A paixão pela vida no campo

Paixão pelo campo foi influenciada pelo pai

Reiner Jesus Martins/Arquivo pessoal

O interesse pela agronomia começou ainda na infância, por influência do pai, que trabalha com produção de leite em uma propriedade rural da família em São Tiago, no Sul de Minas.

Reiner acompanhava o trabalho do pai desde pequeno, mas sabia que algumas atividades práticas e mais pesadas seriam difíceis para ele. Durante o ensino médio, decidiu fazer um curso técnico em agropecuária no campus de Florestal da Universidade Federal de Viçosa (UFV).

Depois do curso técnico, ingressou na UFLA. Inicialmente, começou engenharia agrícola, mas decidiu mudar para agronomia. Atualmente, está no segundo período do curso.

Reiner diz que quer usar o conhecimento adquirido na universidade para ajudar o pai a melhorar a forma de trabalhar na propriedade.

"Querendo ou não, um dia o meu pai vai faltar. (...) Eu como filho, não vou jogar o trabalho dele fora, todo o esforço que ele está tendo. É uma coisa que ele sempre gostou de fazer desde novinho e é isso que ele me ensina também", diz o jovem.

Na UFLA, Reiner afirma que precisa de poucas adaptações para acompanhar o curso. Uma das principais é o uso de cadeiras específicas que permitem que ele se posicione para escrever durante as aulas sem depender de um monitor.

Reiner estuda agronomia na UFLA

Redes sociais

Nas atividades práticas em campo, porém, existem algumas limitações. Como determinadas tarefas exigem esforço físico e o uso de equipamentos de proteção, ele nem sempre consegue executá-las da mesma maneira que os colegas.

Nesses casos, ele acompanha as atividades, observa os procedimentos, faz perguntas e busca compreender a parte prática para depois aplicar o conhecimento de outras formas.

A relação com colegas e professores, segundo Reiner, é boa. Ele afirma que sempre gostou de fazer amizades e estar rodeado de pessoas.

A rotina que ganhou as redes

Jovem que nasceu sem os braços mostra como dirige com os pés após conquistar CNH em MG

A rotina de Reiner também passou a chamar a atenção na internet. Ele criou um perfil no TikTok e começou a publicar vídeos mostrando atividades do cotidiano, acumulando mais de 144,3 mil seguidores e 2,8 milhões de curtidas.

A ideia surgiu depois que amigos o incentivaram a mostrar como realizava as tarefas usando os pés. Ele não esperava, porém, que os vídeos alcançassem tantas pessoas.

Durante a pandemia, ele já havia experimentado produzir conteúdo para a internet. Na época, publicou um vídeo contando sua história e chegou a alcançar cerca de 10 mil seguidores rapidamente. Depois, apagou as redes sociais por ser mais novo e por não querer ficar exposto.

Reiner afirma que não começou a produzir conteúdo pensando em ganhar dinheiro. Segundo ele, o objetivo é mostrar como vive e responder à curiosidade dos seguidores. A repercussão trouxe mensagens de pessoas que dizem ter encontrado motivação ao acompanhar os vídeos.

"Eu continuo sendo o Reiner de sempre, esse menino alto astral que tem as responsabilidades, que quer vencer na vida, estudar, trabalhar, viver uma vida normal", afirma.

Reiner ministra palestras sobre sua trajetória de vida nas escolas

Redes sociais

Para Reiner, mais importante do que ser reconhecido pela deficiência é ser reconhecido pelo que faz e pela vida que constrói. Ele defende que pessoas com deficiência não sejam tratadas como incapazes ou como alguém de quem é preciso ter pena.

O jovem ainda afirma que a sociedade precisa estar mais preparada para conviver com as diferenças e compreender que pessoas com deficiência podem estudar, trabalhar, dirigir, praticar esportes, construir amizades e seguir os próprios caminhos.

"Se está na vida, não é para ter pena, não. É para viver realmente, com muita alegria, muita disposição, coragem e vontade", concluiu.

Jovem sem braços conquista CNH e autonomia ao longo da vida

Arte g1

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