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Toneladas de sargaço encalham no Brasil e afetam pesca e turismo, aponta estudo

Toneladas de sargaço encalham no Brasil e afetam pesca e turismo, aponta estudo Geison Mesquita Grandes quantidades de sargaço pelágico das espécies Sargassum natans e Sargassum fluitans têm chegado às praias do Norte e Nordeste do Brasil. Quando se acumulam e começam a se decompor, essas algas podem reduzir o oxigênio da água, prejudicar peixes e outros organismos marinhos e atrapalhar a pesca. 📱

Por Redação Publicado em 24 de setembro de 2026 às 14:13 9 min de leitura

Conteúdo de G1 — ler no site de origem

Toneladas de sargaço encalham no Brasil e afetam pesca e turismo, aponta estudo
Publicado originalmente por [fonte]


Toneladas de sargaço encalham no Brasil e afetam pesca e turismo, aponta estudo

Geison Mesquita

Grandes quantidades de sargaço pelágico das espécies Sargassum natans e Sargassum fluitans têm chegado às praias do Norte e Nordeste do Brasil. Quando se acumulam e começam a se decompor, essas algas podem reduzir o oxigênio da água, prejudicar peixes e outros organismos marinhos e atrapalhar a pesca.

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Nas praias, o mau cheiro e o excesso de material orgânico também podem afetar o turismo e dificultar o uso da faixa de areia.

Um estudo publicado em 2026 reuniu 51 registros de encalhes na costa brasileira entre 2010 e 2025. Desse total, 40 foram encontrados em reportagens e 11 na literatura científica.

Segundo os pesquisadores, a população e a imprensa costumam perceber os eventos rapidamente, enquanto a documentação científica pode ocorrer anos depois.

Os encalhes não acontecem de maneira constante nem seguem um padrão ao longo dos anos. Por isso, um ano com grande volume não significa que as arribadas estejam aumentando continuamente.

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Evento na Praia do Atalaia, em Salinópolis

Geison Mesquita

42,8 mil toneladas em um evento

Em março de 2025, aproximadamente 42,8 mil toneladas de sargaço chegaram às praias de Salinópolis, no Pará. Foi o maior volume de biomassa registrado entre os eventos analisados.

Os outros cinco eventos científicos com estimativa de biomassa variaram entre 174 e 1.843 toneladas.

Geison Mesquita, primeiro autor do estudo e pesquisador de pós-doutorado da Faculdade de Zootecnia e Engenharia de Alimentos da Universidade de São Paulo (FZEA-USP), participou da quantificação do evento.

Sargaço acumulado na areia

Geison Mesquita

Segundo ele, mesmo com o reforço de caminhões do governo estadual, além da estrutura municipal, apenas cerca de 4% da biomassa que chegou às praias foi retirada.

“Isso mostra que o Pará está entre os pontos mais expostos do país e que os municípios ainda não estão preparados para eventos dessa magnitude”, afirma.

As causas do fenômeno ainda são estudadas. Entre os fatores relacionados estão mudanças na circulação do oceano, ventos, disponibilidade de nutrientes e condições ambientais favoráveis ao crescimento das algas.

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As grandes concentrações registradas no Atlântico tropical desde 2011 formam o Grande Cinturão de Sargaço do Atlântico. Em anos de pico, a faixa pode alcançar milhares de quilômetros e reunir milhões de toneladas de biomassa.

A relação com as mudanças climáticas também não está completamente estabelecida. Segundo Geison, o aquecimento do oceano pode alterar correntes, ventos e chuvas e, indiretamente, modificar a quantidade de nutrientes que chega ao mar. Mesmo assim, somente a temperatura não explica o fenômeno.

“O fato é que as mudanças climáticas provavelmente participam desse processo, mas de forma indireta e ainda não totalmente comprovada”, afirma o pesquisador.

Fenômeno leva 42,8 mil toneladas de sargaço a praias do Brasil

Geison Mesquita

Quem deve retirar o sargaço?

Quando grandes quantidades chegam à praia, a responsabilidade imediata costuma ser das prefeituras, que mobilizam equipes, máquinas e caminhões para a limpeza.

Em unidades de conservação federais, órgãos como o Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio) também podem participar. Em situações mais graves, a Defesa Civil pode ser acionada.

Segundo os cientistas, o Brasil ainda não possui um protocolo nacional específico para grandes arribadas de sargaço.

“Não há um plano que defina de forma clara papéis, prazos, métodos de remoção e destinação. Por isso, a resposta costuma ser improvisada e desigual”, afirma Geison.

Em Salinópolis, o volume de 2025 foi tão grande que a prefeitura precisou de ajuda do governo estadual. A retirada também exige cuidado, já que as máquinas podem remover areia junto com a alga e contribuir para a erosão da praia.

Por isso, os pesquisadores defendem planejamento prévio, técnicas adequadas de remoção e definição antecipada do destino da biomassa.

Toneladas de sargaço chegam ao litoral brasileiro e desafiam cidades

Geison Mesquita

Pará concentra registros

Dos 40 registros encontrados na imprensa, 18 ocorreram no Pará. Entre os registros científicos, oito dos 11 casos foram no estado, todos relacionados à Praia do Atalaia, em Salinópolis.

Maranhão e Pernambuco completam os registros científicos, com dois e um caso, respectivamente.

A localização ajuda a explicar essa concentração. O litoral norte brasileiro está próximo da região onde se forma o Grande Cinturão de Sargaço do Atlântico, e correntes oceânicas e ventos transportam o material flutuante em direção à costa.

“A localização do litoral do Pará é o fator determinante. São as correntes que empurram as algas para a costa e essas praias, especialmente em Salinópolis, estão em um local que acaba sendo especialmente afetado por isso”, explica Leonardo Capeleto de Andrade, pesquisador de pós-doutorado da FZEA-USP e um dos autores do estudo.

O pesquisador ressalta, porém, que áreas pouco habitadas do litoral norte, como trechos do Amapá e regiões de manguezais, podem ter encalhes que não chegam aos bancos de dados por falta de monitoramento ou cobertura jornalística.

Nem toda alga na areia é sargaço

Outro alerta do estudo é a dificuldade de identificar corretamente o material que chega às praias.

Entre os registros científicos, todos os casos foram confirmados como sargaço pelágico das espécies S. natans ou S. fluitans. Já entre os registros da imprensa, apenas 65% foram classificados como sargaço pelágico.

Nos outros 35%, havia indícios de que o material poderia ser formado por outras macroalgas, inclusive espécies que vivem presas ao fundo e podem se desprender naturalmente.

Por que toneladas de sargaço estão chegando às praias brasileiras?

schoenitz/ iNaturalist

Por isso, uma grande quantidade de algas na areia não é suficiente para confirmar que se trata do fenômeno associado ao Grande Cinturão de Sargaço.

“A real é que não pode! ‘Sargaço’ é um termo comum usado no Brasil para várias algas (ou mesmo outras plantas) que ‘arribam’ (chegam) às praias”, explica Leonardo.

A distinção é importante porque algas que vivem presas ao fundo têm origem e dinâmica diferentes do sargaço pelágico. Segundo ele, a identificação correta pode exigir análise em laboratório.

Quando o acúmulo vira problema

A presença de algas na praia não é, por si só, um problema. Pequenas quantidades de material orgânico fazem parte do funcionamento natural desses ambientes e podem servir de alimento e abrigo para pequenos animais.

A situação muda quando grandes volumes se acumulam e começam a se decompor. A matéria orgânica consome oxigênio da água próxima à costa e pode afetar peixes, crustáceos e outros organismos.

A decomposição também pode liberar gases como sulfeto de hidrogênio e amônia.

Na areia, o sulfeto de hidrogênio está associado ao forte cheiro de ovo podre. Em concentrações elevadas e após exposição prolongada, os gases podem provocar irritação respiratória, dor de cabeça e náusea, especialmente em pessoas que trabalham na limpeza.

O material também pode acumular metais, incluindo arsênio, o que aumenta a preocupação com a destinação da biomassa retirada das praias.

Na pesca, o acúmulo de algas pode obstruir redes e motores de embarcações. No turismo, o excesso de material na areia, o mau cheiro e a necessidade de limpeza podem mudar o uso das praias e afastar visitantes.

O estudo reuniu registros desses impactos, mas não calculou o prejuízo financeiro causado pelos encalhes no Brasil.

Fenômeno que leva toneladas de algas às praias brasileiras preocupa pesquisadores

Geison Mesquita

Monitoramento para antecipar chegada

Para os cientistas, o caminho é prever os eventos e aumentar a capacidade de resposta antes que as algas cheguem às praias. Como é impossível impedir o fenômeno, é preciso ao menos se preparar.

Satélites identificam grandes concentrações de sargaço em mar aberto, e essas informações podem ser combinadas com modelos de correntes e ventos para estimar quais áreas têm maior risco de encalhe.

Drones e câmeras também podem ajudar a medir o volume que chega à costa.

Com um sistema estruturado, seria possível se preparar com dias ou até semanas de antecedência. A participação de moradores, pescadores e turistas também é uma opção: fotografias acompanhadas de localização poderiam ajudar a registrar ocorrências em regiões onde não há equipes de pesquisa.

A proposta é reunir essas informações em um sistema nacional, com dados sobre localização, extensão do material, estimativa de biomassa e características da alga.

Os registros enviados pela população seriam avaliados por especialistas e cruzados com imagens de satélite e estudos científicos.

Para Leonardo, a preparação também é essencial:

“Estas regiões precisarão se preparar para esta chegada das algas. Este é um problema que não parece tão grande quando um ‘furacão’, mas pode também causar danos milionários na economia turística: ninguém quer ir para uma praia cheia de algas mal-cheirosas”, completa.

Como os eventos são irregulares e ainda há áreas pouco monitoradas, registrar cada chegada é importante para entender a dimensão do fenômeno e melhorar a resposta às arribadas.

*Sob supervisão de Rodrigo Peronti.

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