O verde que vale ouro: como o eucalipto movimenta a economia
De uma pequena semente, um arranha-céu. Paredões de madeira que se multiplicam pelo interior do país, emanando autoridade com seus troncos eretos. É o ouro-verde do campo, símbolo de produtividade e inovação, também conhecido como eucalipto. Presente no Brasil há mais de dois séculos, o eucalipto é hoje o principal responsável pela cobertura das áreas de florestas plantadas e posiciona o país como
Conteúdo de G1 — ler no site de origem
De uma pequena semente, um arranha-céu. Paredões de madeira que se multiplicam pelo interior do país, emanando autoridade com seus troncos eretos. É o ouro-verde do campo, símbolo de produtividade e inovação, também conhecido como eucalipto.
Presente no Brasil há mais de dois séculos, o eucalipto é hoje o principal responsável pela cobertura das áreas de florestas plantadas e posiciona o país como o maior exportador mundial de celulose.
De origem australiana, a espécie encontrou prosperidade nas terras tropicais. Não existem registros oficiais de quando as primeiras mudas chegaram ao Brasil, mas relatos apontam para um período entre 1825 e 1868, em estados como Rio de Janeiro, Rio Grande do Sul e São Paulo.
Inicialmente, seu cultivo tinha fins ornamentais, servindo também como quebra-vento e para extração de seu óleo essencial.
As plantações em larga escala começaram na década de 1960. O rápido crescimento das árvores, a capacidade de adaptação a diferentes regiões ecológicas e a diversidade de utilização transformaram o eucalipto em um aliado estratégico para o reflorestamento e em um importante potencial econômico.
A espécie passou a ser utilizada principalmente como biomassa combustível, como lenha e carvão, e na fabricação de celulose e papel.
O eucalipto se firma como um pilar da economia nacional.
Divulgação/Mikaella de Moura.
Tecnologia a serviço da floresta
O avanço da silvicultura impulsionou pesquisas científicas sobre melhoramento genético. Com as biotecnologias, vieram as mudas clonais, propagadas por meio de técnicas de reprodução assexuada de brotos ou estacas, resultando em cópias idênticas de matrizes selecionadas; e as seminais, originadas da reprodução sexuada de sementes, resultando em mudas com características únicas.
As clonais garantem uniformidade e maior desempenho para plantações industriais, enquanto as seminais oferecem diversidade genética e menor investimento inicial, sendo mais indicadas para produções de menor escala ou voltadas ao reflorestamento.
Essas tecnologias têm tornado a silvicultura mais eficiente, com plantas adaptadas a solos e climas variados e mais resistentes a pragas, auxiliando na expansão dos cultivos, no aumento da produtividade e na redução de custos.
Tradição e inovação: o viveiro Novo Horizonte
O reflexo da modernização da silvicultura já é visto no Viveiro Florestal Novo Horizonte, localizado na comunidade de Santa Maria, distrito de Santa Tereza do Oeste, no Paraná.
O negócio familiar, fundado em 2022, é resultado das experiências de Claudemar Jorge, adquiridas ao longo de sua trajetória no setor florestal. O modelo de produção é baseado em conhecimentos técnicos, dedicação e aprimoramento contínuo.
Mudas que marcam o início de um ciclo promissor.
Divulgação/Arquivo pessoal do Novo Horizonte Viveiro Florestal.
Atualmente, o Viveiro Novo Horizonte se dedica exclusivamente à produção de mudas clonais de eucalipto, reflexo da modernização do setor e da busca por eficiência.
“Bem no início, trabalhamos com a produção de mudas por semente (seminal), mas hoje o mercado evoluiu e, nas regiões do Paraná, praticamente todas as empresas já trabalham somente com clone, que são, logicamente, melhorados”, explica Abner Nattã Jorge, técnico em agropecuária, acadêmico de Agronomia e filho de Claudemar.
A prioridade, segundo ele, é garantir a qualidade das mudas produzidas, com alto índice de pegamento e resistência em campo, para atender às demandas das empresas reflorestadoras.
“O Brasil tem clima, solo e áreas propícias para o plantio de eucalipto, mas nada disso iria adiantar se a muda também não fosse de qualidade. Então, a gente vê que a qualidade da muda é o foco principal”, ressalta.
Tradição familiar e inovação tecnológica como aliados no Novo Horizonte Viveiro Florestal.
Divulgação/Arquivo pessoal do Novo Horizonte Viveiro Florestal.
Entre o ouro e o “deserto verde”
Apesar da importância do eucalipto para a economia nacional e o reflorestamento, seu cultivo também desperta preocupações ambientais.
A expressão “deserto verde” é usada por ambientalistas para se referir à monocultura florestal. Eles argumentam que, em larga escala, essas plantações afetam o equilíbrio ecológico, reduzem a biodiversidade, empobrecem o solo e alteram o regime hídrico local, uma vez que o consumo de água por essas árvores é elevado.
Contrariando as críticas, instituições técnicas como a Embrapa (Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária) defendem que o manejo correto e bem planejado dessas espécies pode contribuir para a recuperação de solos degradados e favorecer a regeneração de florestas nativas.
De acordo com estudos da instituição, áreas antes improdutivas passam a apresentar sinais de regeneração da vegetação nativa após o cultivo responsável do eucalipto.
“Essa crítica deve ser discutida porque conscientiza o produtor. É uma crítica construtiva”, afirma Abner Nattã Jorge, elucidando que existem recomendações técnicas para um plantio correto e sustentável e que os produtores precisam estar cientes das normas para não causar prejuízos ao meio ambiente.
Mais do que uma espécie de rápido crescimento, o eucalipto se tornou parte importante da cadeia produtiva brasileira. Da produção de mudas ao processamento da madeira, a atividade reúne tecnologia, pesquisa e geração de matéria-prima para diferentes setores, enquanto o manejo adequado permanece como um dos principais desafios para a expansão das florestas plantadas.
Texto produzido por Mikaella de Moura, acadêmica do curso de Jornalismo do Centro Universitário FAG, sob orientação da professora Julliane Brita, para a 24ª edição da Revista Verbo, veiculada na 5ª edição do City Farm FAG.