De Jair a Flávio: Maceió é a única capital do NE onde um Bolsonaro vence Lula pela 3ª vez seguida
Cientista político analisa por que Maceió foi a única capital do NE onde Flávio venceu Maceió foi a única capital do Nordeste em que Flávio Bolsonaro (PL) venceu o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) no primeiro turno das eleições de 2026. O resultado deste domingo (4) repete o cenário dos dois turnos de 2022, quando a capital alagoana também foi a única da região em que Jair Bolsonaro (PL),
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Cientista político analisa por que Maceió foi a única capital do NE onde Flávio venceu
Maceió foi a única capital do Nordeste em que Flávio Bolsonaro (PL) venceu o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) no primeiro turno das eleições de 2026. O resultado deste domingo (4) repete o cenário dos dois turnos de 2022, quando a capital alagoana também foi a única da região em que Jair Bolsonaro (PL), pai de Flávio, ficou à frente do petista.
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Flávio recebeu 52,37% dos votos válidos em Maceió, contra 41,08% de Lula. Nas outras oito capitais nordestinas, o resultado foi inverso, com Lula na liderança.
Na comparação com o primeiro turno de 2022, os dois campos cresceram percentualmente em Maceió, mas o avanço do bolsonarismo foi maior. Há quatro anos, Jair Bolsonaro teve 49,59% e Lula, 40,43%. Agora, Flávio chegou a 52,37%, um aumento de 2,78 pontos percentuais em relação à votação do pai, enquanto Lula avançou 0,65 ponto, para 41,08%.
Votação presidencial no Nordeste
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A votação na capital também contrasta com o resultado de Alagoas como um todo. Considerados os votos de todos os municípios do estado, Lula terminou o primeiro turno com 54,73% dos votos válidos, enquanto Flávio teve 40,45%. Mesmo assim, Alagoas foi o estado nordestino em que a diferença entre os dois foi menor.
No país, Flávio Bolsonaro terminou o primeiro turno na liderança, com 47,03% dos votos válidos, contra 45,16% de Lula. Como nenhum candidato ultrapassou 50% dos votos válidos, os dois disputarão o segundo turno em 25 de outubro.
A diferença de Maceió para as demais capitais da região fica mais evidente quando se observa a votação de Flávio Bolsonaro. Depois da capital alagoana, onde ele alcançou 52,37%, seu melhor desempenho foi em João Pessoa, com 45,67%, seguida por Natal, onde recebeu 44,17%.
Mesmo nessas duas cidades, Lula ficou na frente: teve 46,50% em João Pessoa e 48,99% em Natal. Nas demais capitais nordestinas, a distância a favor do petista foi ainda maior.
Por que Maceió destoa do restante do Nordeste?
Para o cientista político Ranulfo Paranhos, professor da Universidade Federal de Alagoas (Ufal), há hipóteses que ajudam a entender esse comportamento eleitoral. Ele ressalta que são interpretações sobre o cenário político alagoano, e não uma relação de causa e efeito já comprovada por pesquisas.
A primeira delas está relacionada à falta de uma tradição eleitoral forte do PT em Alagoas. Segundo Paranhos, diferentemente de outros estados nordestinos, o partido nunca se consolidou como uma das principais forças políticas locais, especialmente em Maceió, maior colégio eleitoral do estado.
O professor cita como exemplo a presença historicamente reduzida do PT nas prefeituras, câmaras municipais e na Assembleia Legislativa. Mesmo quando participa de governos estaduais, o partido geralmente aparece como aliado de grupos políticos maiores, e não como protagonista.
“Maceió, como principal colégio eleitoral, não tem o PT como a principal âncora ou a principal referência político-partidária para converter isso em voto para o seu candidato para a Presidência da República”, explicou Paranhos.
Segundo ele, a política alagoana foi historicamente organizada em torno de outros grupos. Entre eles estão o MDB ligado aos Calheiros, o PSDB que teve como uma de suas principais lideranças o ex-governador Teotonio Vilela Filho e grupos ligados a Ronaldo Lessa, que passou pelo PSB e pelo PDT.
Isso não significa que esses grupos sejam necessariamente bolsonaristas. A questão, na avaliação do cientista político, é que a esquerda e, particularmente, o PT nunca tiveram em Alagoas o mesmo protagonismo partidário encontrado em outras partes do Nordeste.
Votação para presidente em AL
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Paranhos cita o MDB como exemplo. O partido mantém alianças com o PT em Alagoas e o próprio PT participou das gestões de Renan Filho e Paulo Dantas. Ainda assim, o MDB possui estrutura, lideranças e projeto político próprios.
“O PT gravita em torno do MDB”, resumiu o professor ao explicar a relação entre as duas legendas no estado.
A segunda hipótese está ligada justamente à composição das elites políticas e econômicas de Alagoas. Segundo Paranhos, os principais grupos que historicamente concentraram poder no estado não têm origem em partidos identificados com a esquerda.
Ele menciona, por exemplo, o grupo político do deputado federal Arthur Lira. Paranhos ressalta que Lira não é uma liderança que possa ser simplesmente classificada como ideológica ou de extrema direita, mas como um político de perfil mais pragmático. Ainda assim, o grupo ao qual pertence não tem tradição ligada à esquerda.
Para o professor, estruturas políticas desse tipo ganham força também por meio da atuação parlamentar e da destinação de recursos e emendas a seus principais redutos eleitorais, reforçando lideranças locais que não estão ligadas ao PT.
JHC e a herança do PL em Maceió
JHC (PSDB)
TV Asa Branca Alagoas
Outro elemento citado por Paranhos é a trajetória política recente da própria capital. JHC, que deixou a Prefeitura de Maceió para disputar o governo de Alagoas em 2026, já pertenceu ao PL, partido de Jair e Flávio Bolsonaro, antes de migrar para o PSDB.
Na eleição deste ano, JHC evitou vincular diretamente sua candidatura ao governo à disputa presidencial. Não abraçou publicamente a campanha de Flávio Bolsonaro, mas também não fez campanha por Lula.
Para Paranhos, essa separação não elimina completamente a herança política construída anteriormente.
Segundo ele, a campanha de JHC procurou tratar as duas disputas de maneira independente: de um lado, sua candidatura ao governo; de outro, a eleição presidencial.
Ainda assim, o professor avalia que existe em Maceió uma estrutura política e eleitoral historicamente mais próxima de grupos de centro e de direita.
“Nós não temos no estado de Alagoas grupos de elites ligados ao PT ou grupos de elites ligados mais à esquerda”, afirmou Paranhos.
Ele reforça, porém, que as hipóteses ajudam a interpretar o resultado, mas não são suficientes para afirmar que esses fatores, isoladamente, fizeram os eleitores da capital escolherem Flávio Bolsonaro.
Cenário já havia se repetido nos dois turnos de 2022
Flávio Bolsonaro e Lula.
Foto: Mateus Bonomi/Reuters; Roberto Sungi/Estadão Conteúdo
A posição de Maceió como exceção entre as capitais nordestinas não começou em 2026. Nos dois turnos da eleição presidencial de 2022, Jair Bolsonaro também venceu Lula na cidade.
No primeiro turno daquele ano, Bolsonaro recebeu 49,59% dos votos válidos em Maceió, contra 40,43% de Lula. A disputa mais próxima nas outras capitais ocorreu em João Pessoa, mas, mesmo lá, Lula ficou à frente, com 47,38%, contra 44,48% de Bolsonaro.
No segundo turno, a vantagem de Bolsonaro em Maceió aumentou. Ele recebeu 57,18% dos votos válidos, contra 42,82% de Lula. Mais uma vez, nenhuma das outras oito capitais nordestinas acompanhou a capital alagoana.
Com o resultado de 2026, esta é, portanto, a terceira votação presidencial consecutiva em que Maceió é a única capital do Nordeste a dar vitória a um integrante da família Bolsonaro: primeiro turno de 2022, segundo turno de 2022 e primeiro turno de 2026.
Bolsonaro já vencia em Maceió em 2018
O ex-presidente Jair Bolsonaro foi citado em comunicação que estava nos arquivos Epstein.
Getty Images via BBC
A força eleitoral da família Bolsonaro em Maceió, porém, é anterior à disputa direta contra Lula.
Em 2018, na primeira eleição presidencial disputada por Jair Bolsonaro, ele também foi o candidato mais votado na capital alagoana. No primeiro turno, recebeu 52,29% dos votos válidos, enquanto Fernando Haddad (PT) teve 19,71%. No segundo, Bolsonaro ampliou o percentual para 61,63%, contra 38,37% do petista.
Naquele primeiro turno, no entanto, Maceió ainda não estava sozinha entre as capitais nordestinas, Bolsonaro também terminou na frente em outras cidades da região. A particularidade da capital alagoana se consolidou em 2022, quando passou a ser a única do Nordeste a escolher Bolsonaro tanto no primeiro quanto no segundo turno.
Quatro anos depois, mesmo com a troca de Jair por Flávio Bolsonaro na disputa pela Presidência, o padrão permaneceu. No primeiro turno de 2026, oito capitais nordestinas deram maioria a Lula. Maceió, novamente, escolheu um Bolsonaro.