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Doença rara que atinge os olhos tem origem em anticorpo que também afeta a tireoide

A denominação “doenças raras” abrange um leque de pelo menos 5 mil enfermidades que atingem até 65 em cada 100 mil pessoas, ou seja, um número relativamente pequeno de indivíduos. Por esse motivo, os pacientes demoram a receber um diagnóstico ou tratamento. É o caso da Doença Ocular da Tireoide (DOT), de origem autoimune e que pode causar repercussões de longo prazo, como desfiguramento facial, es

Por Redação Publicado em 13 de outubro de 2026 às 03:00 4 min de leitura

Conteúdo de G1 — ler no site de origem

Doença rara que atinge os olhos tem origem em anticorpo que também afeta a tireoide
Publicado originalmente por [fonte]

A denominação “doenças raras” abrange um leque de pelo menos 5 mil enfermidades que atingem até 65 em cada 100 mil pessoas, ou seja, um número relativamente pequeno de indivíduos. Por esse motivo, os pacientes demoram a receber um diagnóstico ou tratamento. É o caso da Doença Ocular da Tireoide (DOT), de origem autoimune e que pode causar repercussões de longo prazo, como desfiguramento facial, estrabismo e neuropatia óptica, com risco até de perda da visão. Conversei com o endocrinologista Cléo Otaviano Mesa Junior, professor de medicina da PUC-PR e médico do Hospital de Clínicas da Universidade Federal do Paraná, onde é responsável técnico pelo serviço de endocrinologia, que me deu uma “aula”:

Patricia Gasques: paciente portadora de Doença Ocular da Tireoide

Divulgação

“Para entender a doença, é preciso saber que há uma base comum entre o que acontece no olho e na tireoide, embora as abordagens terapêuticas não sejam as mesmas. Ocorre um desequilíbrio no sistema imunológico e a pessoa começa a fabricar um anticorpo, o TRAb (Anticorpo Antirreceptor de TSH), que afeta uma proteína que existe na tireoide, provocando uma produção excessiva de hormônio que se traduz no hipertireoidismo. A questão é que os receptores que existem na tireoide também estão presentes nos tecidos, gordura e músculos que ficam atrás dos olhos. Quando o TRAb se liga a eles nessa região ocular, desencadeia um processo inflamatório que causa os sintomas da DOT, como olhos saltados (proptose) e inchaço”, explicou.

A grande maioria com disfunções na tireoide não apresenta o quadro grave nos olhos. Há, inclusive, aqueles que só têm o problema ocular. Para complicar um pouco mais: não é todo paciente com distúrbios de tireoide que vai desenvolver a DOT, e nem todo paciente com DOT tem uma condição tireoidiana, como hipotireoidismo ou hipertireoidismo.

A lista de sintomas de desconfortos é longa: olhos projetados para fora, retração palpebral, dificuldades de fechar os olhos, vermelhidão, inchaço, sensação de areia nos olhos, fotofobia, lacrimejamento excessivo, visão embaçada e visão dupla (diplopia). Sem contar os efeitos psicológicos, bastante impactantes: 52% apresentam perda de autoconfiança; 63% sofrem um impacto psicossocial pela mudança na aparência; e 45% desenvolvem estresse e ansiedade. “Afeta demais a vida do paciente: não apenas a visão prejudicada que interfere nas atividades profissionais e do dia a dia, mas também a questão estética, de como as pessoas o reconhecem”, diz Mesa Junior.

O tratamento pode envolver descompressão da órbita, correção do estrabismo e correção de retração palpebral, além de medicamentos. As mulheres representam o maior número de pacientes, mas a manifestação tende a ser mais grave quando acomete os homens e idosos. Mundialmente, a DOT tem incidência de 16 casos a cada 100 mil mulheres e 2,9 casos a cada 100 mil homens. “O tratamento é agressivo e difícil. Há um período em que a doença fica ativa com todos os sintomas – essa é a janela de oportunidade – que pode durar de seis meses a dois anos. Depois disso, a DOT tende a ceder, mas não regride totalmente. Ficam as sequelas, como o olho mais para fora e o desvio no olhar, que é a fase crônica, na qual são realizadas as intervenções corretivas. A abordagem é diferente nas duas fases, com medicamentos distintos”, afirma o médico.

Dois especialistas devem trabalhar em conjunto: além do endocrinologista, um oftalmologista especialista em órbita e estrabismo. Apesar de pouco frequentes, reativações podem ocorrer, por meio de gatilhos como estresse, emocional ou físico (como uma cirurgia), e alguns medicamentos.

O conselho do professor: se o paciente tem uma disfunção da tireoide, é importante comunicar qualquer alteração ao seu endocrinologista imediatamente. “No entanto, se a doença ocular aparece primeiro, ou as duas se manifestam simultaneamente, é comum que a pessoa vá ao oftalmologista, que deve ser alertado sobre o risco de uma condição tireoidiana quando há visão dupla e o olho vem para a frente, como se estivesse saltando da órbita”, detalha.

Está no ar uma campanha sobre a DOT, criada pela Vozes do Advocacy, federação que reúne 25 associações de diabetes que resolveu abraçar a causa. Trata-se de um minidocumentário com relatos emocionantes sobre a falta de conhecimento sobre a enfermidade e as complicações à saúde física e mental, e que pode ser acessado aqui.

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