Dois ônibus, 20 degraus e baixa visão: as histórias de eleitores que enfrentam obstáculos para votar em Campinas
De acessibilidade a 'drible' em santinhos: os desafios para votar em Campinas Robson Barbosa trabalhava com uma trena quando percebeu, ao deixar de enxergar os números, que o glaucoma hereditário havia finalmente prejudicado a sua visão. A condição modificou, há 22 anos, toda uma rotina e até hoje exige adaptações para tarefas simples e complexas, como a deste domingo (4), dia das eleições. Entre
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De acessibilidade a 'drible' em santinhos: os desafios para votar em Campinas
Robson Barbosa trabalhava com uma trena quando percebeu, ao deixar de enxergar os números, que o glaucoma hereditário havia finalmente prejudicado a sua visão. A condição modificou, há 22 anos, toda uma rotina e até hoje exige adaptações para tarefas simples e complexas, como a deste domingo (4), dia das eleições. Entre quem acorda às 5h para pegar dois ônibus, idoso de 93 anos que precisa subir 20 degraus para chegar à seção eleitoral e moradores com mobilidade reduzida que driblam "santinhos" escorregadios, o g1 acompanhou eleitores que superam obstáculos para exercer o direito ao voto. As histórias são diferentes, mas fazem parte de uma mesma realidade em colégios eleitorais de Campinas: para alguns eleitores, exercer o direito ao voto começa muito antes de apertar os botões da urna.
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E Robson Barbosa conhece esse processo. A baixa visão foi adquirida em decorrência do glaucoma agressivo descoberto quando ele tinha 25 anos. Depois de cirurgias e da perda progressiva da visão, precisou adaptar a rotina. Neste domingo, ele voltou ao bairro Jardim dos Oliveiras, onde cresceu e sempre votou. Para chegar à escola, percorreu cerca de 1,5 quilômetro a pé, com o auxílio da bengala e da esposa.
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Durante anos, Robson fez acompanhamento médico, utilizou colírios e passou por procedimentos para tentar controlar a pressão dos olhos. Em 2014, perdeu a visão do olho esquerdo após uma cirurgia e passou a enxergar apenas com o direito, de forma periférica.
Por alguns anos, conseguiu manter essa visão. Em setembro de 2019, porém, percebeu que os números de uma trena começaram a ficar distorcidos enquanto trabalhava em uma gráfica. A pressão ocular estava muito alta e ele precisou passar por outra cirurgia. O procedimento deixou um resíduo visual.
"Eu sentia bastante dor, assim, de cabeça, e o oftalmologista falou, nossa, a pressão tá muito alta, aí foi onde eu comecei a correr, ir atrás novamente, pra ver o que teria que ser feito, aí teve que partir pra cirurgia", contou.
🔍O que é visão periférica? é a capacidade de enxergar objetos, formas e movimentos nas laterais e fora do foco central, usando os cantos dos olhos.
Ao longo do processo, encontrou no esporte uma nova possibilidade. Aos 40 anos, começou a treinar atletismo paralímpico e chegou a disputar provas de 1,5 mil metros e 5 mil metros, além do Campeonato Brasileiro Paralímpico.
Hoje, Robson tem um campo de visão reduzido. A perda fez com que precisasse reaprender tarefas do cotidiano e adaptar a forma como se locomove.
“Na minha baixa visão, local aberto que não tem muito obstáculo, eu ainda consigo me locomover sem a bengala. Agora, num ambiente fechado, escuro, onde a visão diminui bastante e com muito movimento de muita gente, aí eu tenho que usar a bengala”, explicou.
Votar exige adaptação
Robson e a esposa durante a votação neste domingo (4).
Igor Henrique Silva/g1
A participação nas eleições também faz parte desse processo de adaptação. A primeira eleição que disputou com baixa visão foi em 2022, quando ainda tinha um resíduo visual maior. Na ocasião, conseguia identificar parte dos números, mas teve dificuldade com o recurso de áudio da urna.
O fone disponibilizado não funcionou. Ele avisou os responsáveis e precisou aproximar o rosto da urna para conseguir ouvir o som de confirmação.
Agora, com a visão ainda mais reduzida, a estratégia foi diferente. Robson contou com a esposa para informar os números dos candidatos enquanto ele realiza a votação.
“Vou com a minha esposa, né? Ela vai falando os números lá e eu vou digitando", explicou.
Acessibilidade também está no caminho até a urna
Robson no colégio eleitoral em que votou
Igor Henrique Silva / g1
O desafio não está só na tela da urna. O colégio eleitoral onde vota fica no bairro em que cresceu. Ele conhece bem as ruas e, por isso, consegue fazer o trajeto a pé. Mesmo assim, a entrada da escola apresenta obstáculos. Segundo ele, há uma escada no acesso ao local.
“Por mais que eu consiga, mas ainda gera um pouco de insegurança. Porque o mais certo mesmo é a rampa”, afirmou.
Apesar das dificuldades, Robson faz questão de votar. Para escolher os candidatos, pesquisa propostas, acompanha informações sobre eles e procura avaliar o histórico de cada um. Mas a perda da visão também mudou a forma como percebe quem está do outro lado da tela.
"A gente também ouve com o olho às vezes, sabe? Às vezes a gente julga a pessoa pela aparência, pelas atitudes, pelos movimentos. E nessa parte assim eu tenho dificuldade por causa da visão, né?”, explica.
Ainda assim, ele considera que o voto é uma forma de participar das decisões do país e acredita que cada escolha pode contribuir para mudanças. “Pra cada voto que você põe lá certinho, você tá dando um passo pra poder melhorar nosso país", comentou. 93 anos e mais de 20 degraus
Francisco Rodrigues precisou subir mais de 20 degraus para chegar à sala onde vota.
Igor Henrique Silva / g1
A dificuldade de acesso ao voto também aparece na história de Francisco Rodrigues. Aos 93 anos, ele precisou subir mais de 20 degraus de dois lances de escada para chegar à sala onde vota.
Francisco frequenta o mesmo colégio eleitoral há pelo menos dez anos, mas, nas eleições anteriores, a seção ficava no térreo. Em 2026, ela foi transferida para a parte superior.
Com problemas nas pernas e dificuldade para subir escadas, o idoso contou que não sabia que teria de enfrentar o percurso para chegar à urna.
“Para mim é difícil, por causa da minha idade agora, né? Eu passei dos 92, estou chegando para 93, problema de perna, é difícil”, contou.
Caminhar, parar e caminhar de novo
Em outro colégio eleitoral, na região do bairro São José, o desafio começou ainda no caminho até a escola.
Aos 72 anos, Ivonildes Almeida Mendes saiu de casa, no bairro Santa Marta, e foi andando até a Emef Prof. Benevenuto de Figueiredo Torres, onde vota.
Com problemas no quadril, precisou fazer o trajeto aos poucos.
“Demora bastante porque eu venho andando, vou parando, vou andando, vou parando”, contou.
Ivolnilde indo ao local de votaçã em meio aos santinhols espalhados no chão
Igor Henrique Silva/ g1
Na chegada, encontrou outro obstáculo: uma grande quantidade de santinhos espalhados pelo chão. Para quem já tem dificuldade para caminhar, o material exigia atenção para evitar tropeços ou quedas.
Segundo Elizabeth Santos, uma das responsáveis pelo colégio, equipes utilizaram sopradores e vassouras para retirar os papéis da entrada.
“Uma moça escorregou e por isso a gente está tentando tirar para não ficar bastante, né? Porque fica um em cima do outro, aí escorrega mesmo”, contou Elizabeth.
Dois ônibus e uma bengala
Santinhos espalhados pela entrada do colégio eleitoral na região do bairro São José
Igor Henrique Silva / g1
Para Rita de Cássia Nunes, o problema foi a distância entre a casa e o local de votação. Ela morava no bairro Carlos Lourenço, mas se mudou há cerca de 15 anos para o São José. Como não transferiu o título, continuou votando no antigo endereço.
Neste domingo, precisou acordar às 5h e pegar dois ônibus para chegar ao colégio eleitoral. Com dificuldade para caminhar depois de sofrer um atropelamento há 12 anos, ela usa uma bengala.
"Onde eu voto tem que subir escada porque é lá em cima, aí acaba ficando mais difícil porque eu não sinto a perna esquerda, aí tem o medo de cair. Mas eu vou devagarinho e chega", relatou.
Rita de Cássia Nunes aguardando o ônibus
Igor Henrique Silva / g1
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