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Estudo revela concentração do tráfico de papagaios em áreas urbanas

Cidades viram ‘ímã’ para tráfico de papagaios, aponta estudo fede_munoz/iNaturalist Um estudo que analisou quase três décadas de apreensões de papagaios no México identificou uma mudança no perfil do tráfico dessas aves: a captura, antes mais associada a áreas rurais e à necessidade de complementar a renda, passou a apresentar maior relação com regiões populosas, onde está concentrada a demanda pe

Por Redação Publicado em 5 de outubro de 2026 às 14:09 7 min de leitura

Conteúdo de G1 — ler no site de origem

Estudo revela concentração do tráfico de papagaios em áreas urbanas
Publicado originalmente por [fonte]

Cidades viram ‘ímã’ para tráfico de papagaios, aponta estudo

fede_munoz/iNaturalist

Um estudo que analisou quase três décadas de apreensões de papagaios no México identificou uma mudança no perfil do tráfico dessas aves: a captura, antes mais associada a áreas rurais e à necessidade de complementar a renda, passou a apresentar maior relação com regiões populosas, onde está concentrada a demanda pelos animais.

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Publicado na revista científica Proceedings of the National Academy of Sciences (PNAS), o trabalho também identificou possíveis corredores usados para transportar as aves e mostrou que o tráfico não se distribui de maneira aleatória pelo território.

A metodologia tem potencial para ser aplicada em outros países, como o Brasil, que entre 1501 e 1520 chegou a aparecer em mapas europeus como “Terra dos Papagaios”, em referência à abundância dessas aves na costa.

No Brasil, o tráfico ilegal de papagaios e araras ameaça espécies que já enfrentam risco de extinção, como a arara-azul-de-lear (Anodorhynchus leari), classificada como “Em Perigo de extinção (EN)” na Lista Oficial da Fauna Ameaçada de Extinção.

Segundo o Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio), a espécie está entre as aves mais cobiçadas pelo tráfico internacional, que historicamente retira ovos e filhotes da natureza para venda ilegal em outros países.

As aves, de forma geral, estão entre os animais mais afetados pelo tráfico no país. Segundo o Instituto Nacional da Mata Atlântica (INMA), elas representam mais de 60% dos animais traficados no Brasil. O problema, porém, não é exclusivamente brasileiro.

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Para chegar aos resultados, os pesquisadores analisaram mais de 6 mil registros de apreensões realizados entre 1997 e 2024. A partir desses dados, relacionaram os locais onde as aves eram encontradas às áreas naturais de ocorrência das espécies e apontaram regiões com maior probabilidade de concentração do transporte ilegal.

De acordo com George Olah, pesquisador da Australian National University (ANU) e um dos autores do estudo, a mudança representa uma transformação no próprio funcionamento desse tipo de comércio.

No passado, a captura poderia funcionar como fonte complementar de renda para famílias de regiões rurais próximas às florestas. Com o passar dos anos, porém, a demanda dos centros urbanos passou a exercer um papel cada vez maior.

“O motor desse mercado passou da necessidade econômica de sobrevivência para a procura de consumo em cidades mais populosas”, explica o pesquisador.

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Do campo para as cidades

Tráfico de papagaios muda de rota e se concentra em grandes cidades

don54/iNaturalist

O estudo dividiu os registros em três períodos: de 1997 a 2008, de 2009 a 2019 e de 2020 a 2024. A comparação mostrou que os fatores associados ao tráfico mudaram ao longo do tempo.

No primeiro período, a quantidade de aves apreendidas estava significativamente relacionada a indicadores de pobreza nos estados mexicanos. O resultado é compatível com uma captura mais oportunista, realizada localmente como forma de obter renda.

A partir de 2009, a relação com a pobreza perdeu força, enquanto o tamanho da população passou a ter maior associação com as apreensões.

O resultado mostra uma mudança no perfil do comércio, que passou a estar mais ligado às regiões com maior número de possíveis compradores.

Para Olah, os grandes centros urbanos passaram a funcionar como um “ímã” para o comércio ilegal.

A mudança também aparece nas espécies procuradas. Ao longo dos três períodos, aves grandes, coloridas e de alto valor, principalmente araras do gênero Ara e papagaios do gênero Amazona, foram capturadas de maneira desproporcional à abundância na natureza.

Aves viajam centenas de quilômetros

Papagaios percorrem centenas de quilômetros até centros do tráfico ilegal

damienxw/iNaturalist

Outro sinal de que o comércio ultrapassa as fronteiras locais é a distância entre as regiões onde as aves vivem e os locais onde são apreendidas.

De acordo com o estudo, muitos papagaios foram encontrados a centenas de quilômetros de suas áreas naturais de ocorrência, inclusive em grandes cidades, como a Cidade do México.

Para entender como esses animais poderiam estar sendo transportados pelo país, os pesquisadores adaptaram uma ferramenta conhecida como teoria de circuitos, normalmente utilizada para estudar a conectividade entre áreas naturais.

Nesse caso, as estradas foram tratadas como possíveis caminhos para o deslocamento das aves. O modelo combinou informações sobre a distribuição dos papagaios na natureza com os locais onde ocorreram apreensões e indicou os corredores com maior probabilidade de concentração do tráfico.

O estudo, porém, ressalta que o mapa não representa necessariamente as rotas reais utilizadas pelos traficantes.

Os corredores são áreas com maior probabilidade de fluxo segundo o modelo, que considera principalmente as rodovias e os dados disponíveis sobre as apreensões.

Por que alguém compra um papagaio ilegal?

Do campo às cidades: estudo revela mudança no tráfico de papagaios

rawcomposition/iNaturalist

Conforme Olah, a procura por essas aves está relacionada principalmente a fatores culturais e afetivos, além da falta de conhecimento sobre os impactos do comércio ilegal.

Papagaios, periquitos e araras são tradicionalmente mantidos como animais de estimação em diferentes países da América Latina. A plumagem colorida, o comportamento e a capacidade de imitar a voz humana contribuem para esse interesse.

O pesquisador também chama atenção para consumidores interessados em espécies raras ou de grande porte, para os quais determinados animais podem adquirir valor de status.

Com a expansão das redes sociais e do comércio pela internet, a ilegalidade pode se tornar menos evidente para o comprador, segundo Olah.

Roubo de filhotes

Filhotes de papagaio são resgatados de uma situação de tráfico de animais silvestres em Floresta (PE)

CPRH

O impacto do tráfico não termina na retirada de um animal da natureza.

Tanto a captura de adultos quanto a retirada de filhotes podem comprometer as populações selvagens. No caso dos adultos, a retirada de indivíduos em idade reprodutiva reduz diretamente a capacidade de reprodução da população.

Já o saque de ninhos interfere na entrada de novos indivíduos.

A retirada repetida de filhotes também pode prejudicar os próprios locais de nidificação, visto que muitas espécies utilizam cavidades de árvores para se reproduzir.

Esses locais podem ser destruídos durante a captura e deixar de estar disponíveis para futuras gerações.

O problema é especialmente preocupante para aves de reprodução relativamente lenta e que podem permanecer muitos anos na natureza.

E o que o México tem a ver com o Brasil?

Embora o estudo tenha sido realizado no México, a metodologia pode ser útil para outros países que enfrentam problemas semelhantes.

Brasil e México possuem grande diversidade de psitacídeos — família das aves que têm o bico curvo —, extensas áreas de habitat, redes rodoviárias e grandes centros urbanos.

Essas características podem criar condições semelhantes para o funcionamento do tráfico, de acordo com Olah.

“O caso do México mostra que o tráfico não é um evento aleatório, mas um sistema espacialmente previsível que evolui de acordo com o desenvolvimento socioeconômico”, afirma.

Segundo o pesquisador, a metodologia poderia ajudar autoridades brasileiras a identificar os corredores mais usados pelo tráfico e direcionar a fiscalização para esses pontos, dificultando o transporte ilegal das aves e ajudando a combater um problema enfrentado pelos dois países.

*Sob supervisão de Rodrigo Peronti.

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