Mitomania: como funciona o fenômeno psíquico que gera o mentiroso patológico
Quadro “O Bobo da corte”, obra do século XVI de Jacob Cornelisz van Oostsanen, é uma representação histórica e universal da figura do mentiroso. Em tempos de eleições, em que mentiras correm soltas, o presidente da Academia Nacional de Medicina Antonio Egídio Nardi escreve sobre as origens e características da mitomania, a patologia da mentira compulsiva. Domínio Público Mentir é um comportamento
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Quadro “O Bobo da corte”, obra do século XVI de Jacob Cornelisz van Oostsanen, é uma representação histórica e universal da figura do mentiroso. Em tempos de eleições, em que mentiras correm soltas, o presidente da Academia Nacional de Medicina Antonio Egídio Nardi escreve sobre as origens e características da mitomania, a patologia da mentira compulsiva.
Domínio Público
Mentir é um comportamento humano universal. A mentira pode proteger a intimidade, evitar conflitos, preservar vínculos ou produzir vantagens sociais.
Existe, entretanto, uma diferença importante. E vale esclarecer a diferença entre mentira ocasional, dirigida a finalidade compreensível, e a mentira patológica. Esta é aquela tradicionalmente denominada pseudologia fantástica ou mitomania.
Nessa condição, a fabricação de histórias torna-se persistente, desproporcional e, por vezes, aparentemente compulsiva. Essa condição passa a constituir uma característica marcante do funcionamento interpessoal do indivíduo.
Descrita na literatura psiquiátrica há mais de um século, a pseudologia fantástica permanece uma entidade controversa. Não constitui, atualmente, um diagnóstico independente nos principais sistemas classificatórios.
Ainda assim, estudos contemporâneos sugerem que a mentira patológica pode produzir sofrimento e prejuízos sociais e ocupacionais suficientemente significativos. Isso para justificar sua consideração como fenômeno psicopatológico específico.
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As histórias do mitômano frequentemente contêm uma combinação peculiar de realidade e fantasia. Não são necessariamente impossíveis. Ao contrário, podem nascer de acontecimentos verdadeiros progressivamente modificados, ornamentados e ampliados.
Em muitos casos, colocam o narrador em posição excepcional, vítima de acontecimentos extraordinários, protagonista de realizações improváveis ou personagem central de situações dramáticas.
Um aspecto importante é que isso difere do delírio porque diante de evidências inequívocas, a pessoa reconhece que determinados fatos narrados não ocorreram.
Uma revisão sistemática recente reforça a heterogeneidade do fenômeno. Entre os casos publicados, aparecem frequentemente motivações relacionadas à autovalorização e à busca de atenção, além de associações com diferentes transtornos psiquiátricos.
Isso torna inadequado considerar todo mentiroso patológico como portador de um determinado transtorno de personalidade.
A mitomania parece ser melhor compreendida como um fenômeno psicopatológico que pode surgir em diferentes organizações de personalidade e contextos clínicos.
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O que acontece com pessoas que convivem com mentirosos por anos?
Há, porém, uma dimensão particularmente interessante e menos explorada. O que acontece com as pessoas que convivem durante anos com alguém que mente sistematicamente?
Inicialmente, familiares, amigos, colegas ou mesmo eleitores podem acreditar nas histórias.
Posteriormente surgem inconsistências, contradições e fatos que não se confirmam. Depois de repetidas experiências, instala-se uma transformação da relação. As pessoas deixam de perguntar simplesmente “isso é verdade?”. E passam a interpretar o discurso dentro de um novo enquadramento. “Essa é a versão que ele ou ela está contando”.
Forma-se, então, uma espécie de adaptação relacional à mentira. Algumas histórias deixam de ser confrontadas, não porque sejam consideradas verdadeiras, mas porque desmenti-las continuamente teria elevado custo emocional e produziria conflitos repetitivos.
O círculo social pode aprender a selecionar quais informações precisam ser verificadas e quais podem ser toleradas ou ignoradas. É importante salientar que esse mecanismo é uma hipótese clínico-relacional plausível. E não uma característica da mitomania já suficientemente demonstrada por estudos controlados.
Surge, assim, um paradoxo fascinante já que a mentira pode continuar existindo mesmo depois de perder parte de sua capacidade de enganar.
O narrador conta, os outros, mesmo os eleitores, escutam, poucos acreditam. E, apesar disso, a interação social prossegue.
Dimensão interpessoal
A literatura chegou inclusive a descrever formas compartilhadas de pseudologia. Esses exemplos ilustram como o fenômeno pode ultrapassar o indivíduo e adquirir uma dimensão interpessoal.
Do ponto de vista terapêutico, isso ajuda a compreender por que a confrontação agressiva nem sempre é a melhor estratégia.
Revisões científicas recentes enfatizam construção de vínculo, escuta de apoio e abordagem das comorbidades psiquiátricas. Opção para não transformar cada encontro em um tribunal destinado a determinar quais afirmações são verdadeiras ou falsas.
Talvez, uma das características mais intrigantes da mitomania seja o tempo. Neste caso, ela pode deixar de ser apenas a patologia de alguém que mente e transformar-se em uma organização relacional. Na organização relacional, todos já sabem que certas histórias provavelmente não são verdadeiras, inclusive, quem as conta.
Nesse cenário, compreender por que a narrativa precisa continuar pode ser clinicamente mais importante do que simplesmente demonstrar que ela é falsa.
*Antonio Egídio Nardi é presidente da Academia Nacional de Medicina, professor titular da Faculdade de Medicina da UFRJ e cientista do Nosso Estado da Faperj, Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).
**Este texto foi publicado originalmente no site do The Conversation Brasil.