'Roráima' ou 'Rorãima'? Qual a pronúncia correta para o nome do estado mais ao Norte do Brasil
'Roráima' ou 'Rorãima'? Qual a pronúncia correta? Biscoito ou bolacha? Pão francês ou cacetinho? "Roráima" ou "Rorãima"? Cada lugar tem seu próprio vocabulário, sotaque e jeito de pronunciar as palavras. Mas uma coisa não muda: o sentimento de pertencimento e a importância que um nome pode ter para uma população. É o caso do nome de Roraima, que celebra 38 anos nesta segunda-feira (5). Roraima é u
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'Roráima' ou 'Rorãima'? Qual a pronúncia correta?
Biscoito ou bolacha? Pão francês ou cacetinho? "Roráima" ou "Rorãima"? Cada lugar tem seu próprio vocabulário, sotaque e jeito de pronunciar as palavras. Mas uma coisa não muda: o sentimento de pertencimento e a importância que um nome pode ter para uma população. É o caso do nome de Roraima, que celebra 38 anos nesta segunda-feira (5). Roraima é um nome de origem indígena e pode significar "serra verde", "monte verde" ou "grande monte verde-azulado". O estado fica no extremo Norte do Brasil e é o menos populoso do país, com população estimada em 761.012 pessoas, segundo dados mais recentes do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).
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Nas redes sociais e até pessoalmente, quando o roraimense "da de frente" com um turista, principalmente das regiões Sul e Sudeste, a forma de pronunciar o nome do estado gera debate e até tatuagem para reafirmar o jeito local de falar. 🗣️ Para o roraimense, a forma correta é falar como nós (incluindo a repórter que vos escreve) falamos: "RORÁIMA", como se tivesse um acento agudo. Para entender por que o roraimense defende o jeito local de pronunciar o nome do estado, o g1 conversou com uma professora e moradores. Bandeira de Roraima, estado menos populoso do Brasil.
Reprodução/Ale-RR
'Roráima' ou 'Rorãima'?
Na pronúncia "Roráima", a sílaba tônica é 'rai', e o 'm' que vem depois nasaliza o som anterior. Entretanto, o 'i'' torna a nasalidade facultativa. De acordo com Ananda Machado, coordenadora pro tempore do curso Gestão Territorial Indígena do Instituto Insikiran, da Universidade Federal de Roraima (UFRR), o nome do estado vem de "Ruraimar", da língua Macuxi, um dos maiores povos indígenas do estado.
Nesse contexto, ela explica que a pronúncia tradicional dos roraimenses é a que mais se aproxima dessa raiz indígena. No entanto, se considerar apenas o ponto de vista linguístico do Português, as duas formas são consideradas corretas.
"Do ponto de vista linguístico, quem estuda as línguas indígenas sabe que Ruraimar é como os macuxis chamam o monte [Roraima]. Os estudos apontam que esse nome é indígena. E o mais próximo [de Ruraimar] seria 'Roráima'. Por isso acho que quando a gente chega aqui e fala 'Rorãima', nos corrigem", explicou a professora. "Mas a nível do português, como a gente sabe, no Brasil cada localidade fala de um jeito, então não é incorreto. Você tem a mesma escrita e formas de leitura diferentes", ressaltou Ananda Machado. Na língua portuguesa, não há regra nem sinal gráfico na escrita da palavra que impeça a leitura com o "a" fechado. Segundo a professora, essa é uma variação regional de sotaque comum entre pessoas vindas das regiões Sul e Sudeste.
Identidade roraimense
Mas a defesa da pronúncia local vai além de uma questão linguística. O modo de falar também funciona como marcador de identidade regional, pertencimento, territorialidade e cultura da população roraimense.
"É uma coisa de variação linguística mesmo daqui. Normalmente, quando a pessoa briga por alguma coisa, é que ela quer mostrar: 'olha, isso aqui é meu território, eu é que sei como se pronuncia o nome do meu lugar", explicou Ananda, reforçando que língua, território e identidade têm uma relação forte.
Maria Angélica, de 14 anos, e a mãe, Daniela Rodrigues, de 66 anos, no Centro de Boa Vista (RR).
Yara Ramalho/g1 RR
Nascida e criada em Roraima, a cuidadora Daniela Rodrigues, de 38 anos, mora em Boa Vista e compara a sensação de ouvir alguém pronunciar o nome do estado de outra forma à de ouvir uma pessoa de fora dar palpite sobre a criação de um filho.
"Nós nascemos aqui, eu sou nascida e criada aqui, e o certo é Roraima [com o a aberto]. A gente fica chateada, muitas vezes com raiva porque eles querem debater que está errado sendo que nós somos daqui, criadas aqui e sempre chamamos assim", disse Daniela. "É uma sensação de que estão chamando a gente de burros. Eles que estão errados, estão vindo de fora, deveriam saber, procurar saber como se pronuncia [localmente] ao invés de debater. A terra é nossa, o estado é nosso", ressaltou. A filha dela, a estudante Maria Angélica, de 14 anos, também se incomoda com a situação e afirmou que, em alguns momento, fica até estressada. "[Sinto] um pouco de estresse porque sempre fomos ensinados que é Roraima. Então, quando alguém de fora fala 'Rorãima' a gente fica meio estressado. Por exemplo, fui em um evento esses dias e estavam mostrando vídeos de vários artistas de fora, eles estavam falando 'Rorãima' e todo mundo [do estado] estava falando: 'não é Rorãima, é Roraima'", lembrou Maria.
José de Lima Ferreira, de 66 anos, vive em Roraim há mais de 25 anos.
Yara Ramalho/g1 RR
O cearense José de Lima Ferreira, de 66 anos, vive em Boa Vista há mais de 25 anos, onde tem um restaurante e se considera um "roraimado", palavra popular usada para se referir a pessoas que não nasceram no estado, mas escolheram viver nele. Mesmo não tendo nascido em solo roraimense, José nunca teve "problema" em falar o nome do estado e também se incomoda quando ouve "Rorãima".
"Eu vejo muitas vezes, já vi várias vezes pessoas de outros estados falar 'Rorãima' e pessoas corrigirem lá do próprio estado, do estado em que eles moram dizendo: 'Não é Rorãima, é Roraima' [...] Os roraimenses não gostam", disse. A professora Ananda Machado é uma das pessoas que se adequou ao modo defendido pelo roraimense. Natural do Rio de Janeiro, ela vive em Roraima há 18 anos e se considera uma "roraimada". Ananda contou que quando chegou ao estado era frequentemente corrigida pelos alunos.
"Tem professor que não gosta de ser corrigido por aluno, mas eu acho que nesses casos tem mais é que se deixar corrigir e se adequar ao local que você está. Eu sempre falo: 'gente, não está errado'. Na língua portuguesa não é um erro você ler dessa forma, porque não tem um acento, não tem nada aí que te obrigue a falar com esse 'a' aberto. Mas, para o que a população local defende, você precisa se adequar". ressaltou a professora. Agora, ela também defende que quem vem de fora deve respeitar e se adequar à pronúncia usada pela população local.
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