Veja como é a rotina de animais silvestres em Araxá
Vista panorâmica do Centro de Desenvolvimento Ambiental em Araxá Divulgação Antes que o visitante veja um lobo-guará caminhando pelo recinto, um tamanduá-bandeira procurando alimento ou uma anta descansando à sombra, existe uma rotina que começa muito antes. A alimentação precisa ser planejada. Os recintos são observados. O comportamento dos animais é acompanhado. Alterações na rotina podem indica
Conteúdo de G1 — ler no site de origem
Vista panorâmica do Centro de Desenvolvimento Ambiental em Araxá
Divulgação
Antes que o visitante veja um lobo-guará caminhando pelo recinto, um tamanduá-bandeira procurando alimento ou uma anta descansando à sombra, existe uma rotina que começa muito antes.
A alimentação precisa ser planejada. Os recintos são observados. O comportamento dos animais é acompanhado. Alterações na rotina podem indicar problemas de saúde. E até a forma como o alimento é oferecido pode fazer parte de uma estratégia para estimular comportamentos naturais.
É esse trabalho que acontece diariamente no Criadouro Conservacionista de Fauna Silvestre em Araxá, no Alto Paranaíba.
Integrado ao Centro de Desenvolvimento Ambiental (CDA), o espaço completa 40 anos em 2026 e tem como foco a conservação da fauna do Cerrado. Ao promover, de forma contínua, a conservação da biodiversidade do Cerrado, a iniciativa consolidou-se como pioneira na integração entre educação ambiental, pesquisa científica e preservação, tendo como objetivo potencializar programas de conservação de espécies ameaçadas de extinção e contribuir diretamente para a manutenção do equilíbrio ecológico do bioma.
Dia começa muito antes de animais aparecerem
A rotina de um criadouro conservacionista exige planejamento. Antes de qualquer atividade com os animais, profissionais precisam saber quais indivíduos serão acompanhados, quais cuidados específicos cada espécie exige e quais mudanças foram observadas nos dias anteriores. Os cuidados são realizados diariamente, sem interrupção. Uma equipe de cuidadores garante a limpeza dos recintos e ajudam a promover a qualidade de vida dos animais.
O cuidado começa na concepção do criadouro: os 48 recintos foram planejados para atender condições de bem-estar animal das espécies mantidas. A maioria dos recintos possuem vegetação densa, permitindo que os animais exploram sentidos naturais e comportamentos fisiológicos, o que contribui para o sucesso reprodutivo.
A alimentação é um dos pontos centrais. Cada espécie possui necessidades próprias e, dentro delas, cada animal também pode apresentar características individuais. O manejo precisa levar em consideração fatores como idade, condição física e comportamento.
São quase três toneladas de frutas, verduras e outros itens alimentares fornecidos mensalmente, em dietas preparadas, para 94 animais mantidos sob cuidados no CDA. A maneira como o alimento é disponibilizado também pode ser usada para estimular comportamentos naturais. É nesse ponto que entra o enriquecimento ambiental.
Comida também pode virar um desafio
Em vez de receber o alimento sempre no mesmo lugar e da mesma maneira, determinados animais podem ser estimulados a procurar, manipular ou alcançar a comida.
A estratégia ajuda a combater a monotonia e pode estimular comportamentos relacionados à busca por alimento, contribuindo com a melhoraria na qualidade de vida dos animais.
Nos últimos anos, o Centro de Desenvolvimento Ambiental (CDA) tem desenvolvido um intenso programa de bem-estar animal. Esse programa tem como objetivo avaliar o comportamento dos animais mantidos no plantel e desenvolver planos individuais de aplicação de técnicas de enriquecimento ambiental e condicionamento para melhorar a qualidade de vida dos animais. Os enriquecimentos são atividades que tiram o animal da rotina: mudar estruturas nos recintos, mudar a forma de oferecimento dos alimentos, inclusão de estímulos inéditos, entre outros.
Diariamente a equipe desenvolve novas ideias de enriquecimento que são aplicados, avaliados e melhorados de acordo com a resposta dos animais. Cada espécie exige um tipo de cuidado
O criadouro reúne espécies diferentes do Cerrado e, consequentemente, não existe uma única rotina capaz de atender a todos os animais. Lobos-guará, tamanduás-bandeira, antas e aves possuem necessidades distintas.
Para promover uma dieta balanceada, semanalmente são colhidas frutas da lobeira que passam por um processo de maturação e fazem parte da dieta dos lobos-guará, exercendo importante papel no controle de parasitos. Os bugios também recebem cuidado especial: como boa parte da sua dieta é baseada em folhas nativas do cerrado, folhas de árvores nativas do Cerrado são oferecidas para complementar a dieta deste grupo. O próprio espaço mantém programas de pesquisa, manejo e reprodução de espécies nativas e abriga animais que precisam de cuidados especiais. Atualmente, o Criadouro Conservacionista abriga 94 animais de 13 espécies, que recebem cuidados especializados para reabilitação e conservação, ao mesmo tempo em que seus dados genéticos e biológicos subsidiam pesquisas desenvolvidas em parceria com instituições de ensino e órgãos ambientais, fortalecendo iniciativas de conservação da fauna silvestre.
Nem todos os animais que chegam podem ser soltos
Um animal resgatado não necessariamente poderá voltar ao Cerrado. Alguns chegam com lesões permanentes. Outros apresentam condições que comprometem sua sobrevivência em vida livre.
Há casos em que as condições do animal inviabilizam seu retorno à vida livre, tornando o Criadouro Conservacionista seu destino permanente. Foi o que aconteceu com a anta Eva, encontrada ainda filhote com uma das patas quebradas na região de Unaí (MG). Diante da impossibilidade de reintrodução à natureza, ela foi encaminhada ao Centro de Desenvolvimento Ambiental, onde vive desde 2022 e continua contribuindo para a conservação da espécie.
Além de participar de ações educativas, Eva inspirou uma das personagens da Turma da Kika, iniciativa do Programa de Educação Ambiental que transforma animais do plantel do CDA em personagens ilustrados, aproximando crianças e jovens dos temas relacionados à biodiversidade, à fauna do Cerrado e à conservação ambiental.
Quando o objetivo é devolver animal ao Cerrado
Para outros indivíduos, entretanto, o criadouro pode representar apenas uma etapa do caminho. Um exemplo recente envolve tamanduás-bandeira que passaram por uma fase avançada de reabilitação antes de serem devolvidos à vida livre.
Em parceria com o Instituto Estadual de Florestas (IEF) e o Smithsonian National Zoo and Conservation Biology Institute, animais foram monitorados com uma tecnologia de acompanhamento cardíaco destinada a produzir informações sobre fisiologia e comportamento.
Nesse caso, a rotina dentro do criadouro também serve para preparar o animal para uma vida que acontecerá fora dele.
Essa fase, chamada de reabilitação tem como objetivo promover o desenvolvimento de comportamentos naturais que ajudarão na sobrevivência das espécies em vida livre. No caso dos tamanduás Abner e Gerald que passaram por essa etapa no criadouro em 2025, a equipe estimulava estes comportamentos com o oferecimento de cupins e troncos para auxiliar no desenvolvimento de forrageamento (procura por alimento).
O objetivo não é fazer com que o animal se acostume ao ser humano, mas oferecer condições para que ele desenvolva ou mantenha características necessárias à vida livre.
40 anos de história
O Criadouro Conservacionista de Fauna Silvestre começou suas atividades em 1986 e chega a 2026 com quatro décadas dedicadas à fauna do Cerrado. Ao longo desse período, cerca de 2.400 animais passaram pelo espaço, entre tamanduás-bandeira, antas, lobos-guará, tucanos e macacos-bugio, entre outras espécies.
O trabalho também ultrapassa os limites dos recintos. Em 2026, a CBMM colaborou com uma iniciativa inédita para conservação do lobo-guará: um lobo nascido no criadouro fará parte de um programa de reintrodução da espécie na Argentina. Este esforço coletivo com outras instituições demonstra o impacto do CDA na conservação da biodiversidade.